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Enquanto esperava, calado, a construção de seu mausoléu, o morto chupava tangerina e mirava em castiçais vazios tentando acertar bem no gargalo o caroço. Nunca se viu morto com tão boa pontaria, muito menos com força igual na cusparada. Tivesse o morto descoberto tal talento em vida, sua sina bem que poderia ter sido diferente e talvez hoje fosse um pouco menos morto. Artista de circo, quem sabe. O Incrível Vivo Cuspidor de Caroços seria o título moral de seu legado. Se soubesse disso, o morto antes de morrer teria batalhado para que esta fosse uma modalidade olímpica, que lhe renderia nove medalhas de ouro numa única edição. Teria lecionado o glutão esporte aos garotos pobres do semáforo, aos filhos da elite branca paulistana, aos pequeninos natimortos e aos abortados em geral. Popularizaria o Cuspe de Caroços em Castiçais tal qual Xadrez que abandona a monarquia. Sim, é obvio que teria ganhado muito dinheiro com as classes mais abastadas a ponto de pagar suas excentricidades, mas não se esqueceria de suas origens. Tudo isso teria sido muito bom, se o louco tempo se permitisse ser assim: um invólucro de vontades, um abre e fecha de tempos em tempo, um poder atemporal de poder ser tempo a qualquer tempo.

 

Mas estava mesmo morto e o tempo já fugira à sua realidade. Resolveu parar de devaneios e simplesmente inovar o sonho: trocou o castiçal pela nuca do padre que chegara para lhe encomendar o corpo. Afinal, quem mandou ele chegar antes do tempo?

 

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A Polícia Militar de Teatrópolis prendeu ontem um homem de aproximadamente 27 anos que transportava em seu carro o cadáver da namorada numa mala. O rapaz, aparentemente calmo, respondeu a todas as solicitações do inquérito: explicou que levava a namorada naquela posição pois ela se sentiria mais confortável e que nem imaginava como ela tinha morrido.  
 
– Quando nos vimos a primeira vez ela já estava morta. Apesar de muito pálida, calada e teoricamente fria, era uma moça deveras agradável. Nos conhecemos em seu funeral e foi amor à primeira vista. Ela era o centro das atenções e eu tenho uma queda pela atriz principal.  
 
A PM de Teatrópolis investiga o caso.

A última ocorrência registrada pela Polícia Militar de Teatrópolis foi a de uma mulher que deferiu na cabeça de seu companheiro três machadadas. Matou-o logo nas duas primeiras. No entanto, a última machadada penetrou tão fundo no crânio que ela não conseguiu mais retirar a lâmina.

O homem, já morto, mostrou- se estupefato. Não estava a espera de nenhum dos impactos e não encontrava nenhuma explicação para o ato de sua pacata esposa. Ficou, é claro, com uma profunda dor de cabeça, mas achou por bem (em nome do santo sacramento matrimonial) nunca mais tocar no assunto.

A mulher, por sua vez, também não perdeu muito tempo pensando no que fez. Só gostaria de recuperar a sua lâmina. Mas o homem habituou-se ao adereço e não quis mais tirá-lo da cabeça. Sentindo-se lesada, a mulher procurou as autoridades.

A Polícia Militar de Teatrópolis deu o parecer final quando viu na certidão de casamento “Comunhão Parcial de Bens”. Que ela fique com o cabo e ele com a lâmina.

E caso encerrado.

Foi registrada hoje uma nova ocorrência na Polícia Militar de Teatrópolis. Um homem de meia idade comeu a página de um texto de Brecht numa livraria há pouco inaugurada na periferia da cidade. Após ser intimado pelo proprietário, respondeu que vivia numa dieta rigorosa imposta pelo sistema e que não conseguira resistir ao divino aspecto daquelas palavras que narravam claramente sua situação.  
 
Por favor, falem com Shen Te!! – berrava em catarse antes de recobrar a lucidez. Era enfático e tinha DRT o bastante para exalar um hálito de arroz fresco.  
 
O problema foi realmente desencadeado quando o homem, recobrado do enlevo quase divino, se propôs a pagar somente a página que comera, enquanto o dono da livraria esbravejava pelo pagamento integral da obra.  
 
– Além do mais, tem os direitos autorais! – afirmou de narizinho empinado e batendo, nervoso, a sola do sapatinho – A obra de Brecht só poderá ser defecada se forem pagos os direitos autorais!!!  
 
Depois de chegar a autoridade policial do município, o dono da livraria acabou preso por desacato à autoridade: agrediu com violência o guarda depois que este afirmou que o cidadão só pagaria o consumido de fato. E ponto final.  
 
Outro caso encerrado com os incomuns plausos – que nunca se sabe de onde vem – na verossímil cidade de Teatrópolis.