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Essa é pra você, irmã moderna que não perde a oportunidade de atualizar-se no mundo virtual. À senhora que comprou o CDRoom do Padre Marcelo Rossi e baixou a Paixão de Cristo em seu PC.  Você amiga que brinca escondido fazendo loucuras com a foto do Mel Gibson no Photoshop, adora um bate papo no site da Canção Nova e tem uma foto do Papa como proteção de tela. Amada, você não pode perder essa oportunidade!

Vá ao Santuário de Fátima sem sair do conforto de sua almofadinha anti-hemorróidas!! Acenda uma vela online por uma módica quantia de 0,3 euro que pode — olha que incrível!! — ser paga com seu cartão de crédito!! E NÃO É SÓ ISSO!! Se o papo da hemorróida for sério, você ainda pode encomendar uma escultura de cera no formado da região atingida!! Não é o máximo??

Eu mesmo já fui lá e acendi a minha. Vai que algum desses Lucius da vida erra a Zíbia e me cutuca à noite para escrever umas coisinhas. Cruz credo!

Quando a soudedeus encontrou o cheio_de_fé_sp23 tudo poderia ter acontecido. Ao menos acontecido de acordo com as regras do céu ou os desígnios do divino. Mas, sob a luz da verdade e longe da ostentação competitiva de fé, limitaram a dita providência num encontro sexual fugido e de baixa espiritualidade.

Algumas coisas escapam das previsões. Principalmente as mais rigorosas.  

Dum dicionário de língua portuguesa ou aleatóriamente de sua imaginação, retire uma porção de palavras quaisquer. Comece com umas cinco, depois aumente paulatinamente de acordo com o seu ego (ou a ovação de seus amigos). Por exemplo: soleira, azul, descanso, repousa, poeta.

Lance-as num liquidificador, fume um baseado ou fique angustiado. Os três métodos são infalíveis, mas cuidado: nunca os use de uma só vez. Corre o risco de ganhar a alcunha de novo-mau-do-século. Ou de plágio de Caio Fernando Abreu. No final, coloque a mistura num papel. Dependendo das palavras não precisa untar. Muitas já são grudentas por natureza.

Na soleira do azul repousa o descanso-poeta.

Se não lhe agradar, faça novamente juntado hifens, reticências e travessões. De uma pitada de underground nosense como quem quer dizer algo nas entrelinhas. Dependendo da ocasião, sirva em pequenas porções.

Descansa o azul na soleira do poeta repousante.  

– Calmaê, calmaê… Voltemos a nos beijar, apenas!!  
– Ah, deixa vai… só um pouco…  
– Não, agora não!!! Voltemos aos beijos.  
– Tá bom, tá bom!  
 
  
– Eu não estou agüentando mais… Sou louco sim, e daí?!  
– Não, não, não!! Pode tirar a mão do meu zíper… não! tira a mão, não desça meu zíper agor… caramba, já desceu!!  
– Há, que delícia!!  
– Pô, mas por pra fora já é exagero… Ops, peraê!! Mantenha a cabeça sobre o pescoço. Sobre o pescoço!! Sobre o SEU pescoço!!  
– Ai!! Não puxa o meu cabelo!! Vai me dar dor de cabeça!!  
– Uma dor de cabeça agora não seria uma má idéia.  
– Vai, relaxa, a jaqueta está escondendo tudo.  
 
  
– Arfh… hummm… ahh! Devagar… Tá dando bandeira sua mão batendo na jaqueta!!  
– Meu, você é muito controlado. Fora aquela velhinha ali esfregando as pernas, ninguém mais tá olhando.  
– Sei! – Não, não, não, tira esta cabeça de dentro da jaqueta antes que eu feche de vez o meu zíper.  
– Seu chato!!!  
– Tá bom, tá bom… põe a boca só um pouquinho que agora não tem ninguém olhando. Meu, que vergonha!!  
 
  
– Shlub, shlub…  
– Vai, vai rápido que a tiazinha ali já tá acariciando os mamilos… vai, assim, isso…vai, aaaahhh!!!!  
– (cusp!)  
 
  
– Meu, a gente precisa parar com isso. Vê só, sujou todo o forro da jaqueta. Minhas costelas estão molhadas. Você é louco!!!  
– Mas diz aí se não é bom variar um pouquinho de vez em quando!! E esta foi a nossa primeira vez assim…  
– Primeira vez?? Na semana passada fomos enquadrados no show do Erasmo Carlos, lembra??

– Primeira vez no playground do parque municipal num domingo de manhã, seu bobo…  

– Sei – mas agora aperta o passo que a velhinha e o guarda estão seguindo a gente!!!  
– Humpf!! Velhinha pervertida, essa, não???

Paulista, em si, é uma crônica que remete à solidão.

Um esguio fala ao celular desligado durante horas sob uma música ensurdecedora só para chamar a atenção. Depois, senta ao meu lado num sofá e chora para chamar a atenção. Volta à pista e arrasa no rebolado sem conseguir chamar a atenção de ninguém. No máximo de dois desconexos que caçam personagens por compulsão. O celular finalmente toca. Mas dá pra perceber que é o despertador programado.

Uma barbie beija outra barbie. É estanho: duas montanhas de músculos que se admiram egocentricamente no corpo alheio. Amam-se mais que a qualquer outro. Um belo cataclisma. Excesso de saliva, línguas e hemogenin. Beijam-se para chamar a atenção. Seriam mal sucedidos se não fossem os desconexos caçadores de personagens.

Uma senhora recolhe o lixo com um saco preto. 

A pista lota e o DJ pilota por horas intermináveis a mesma música. Centenas de pessoas dançam tentando chamar a atenção. Solitárias. Ninguém se fala. Ninguém se olha. Ninguém se beija. Estão todos preocupados demais em chamar a atenção para dispensar a sua com alguém. Uma infinidade de lindos umbigos. E o meu é sempre maior e mais lindo e mais descolado e mais tudo que o seu. Eis a maior solidão coletiva que já vi. Eu nunca vi tantas cabeças chacoalharem aleatóriamente como ali.

A senhora continua recolhendo o lixo com um saco preto.

Algo parecido com um skinhead beija uma loira sem perguntar-lhe o nome. Em lugares assim saber o nome é sinal de leviandade. Lábios em riste. Dedos molhados e o volume da calça em punho. Ele (o skinhead) consegue chamar a atenção dum rapaz que olha hipnotizado e esfrega a pélvis. Amém, dizus: alguém consegue tocar um sentido alheio! Então ele vira e passa a beijar o cara também. Perdeu (pudera!) a atenção da loira que agora olha furtiva para uma fumaça que vem do alto da pista. Me remete a infância, aquela loira. Lembro-me de quando procurava formas de elefantes desengonçados nas nuvens. Lúdico o olhar dela. Parece ter treze anos de idade. O skinhead sai. Sem levar dali atenção de ninguém.

Agora a senhora mudou de saco. O lixo se perde num fundo branco. E então ela me olha feio.

Fila no banheiro. A batida techno faz com que os corpos  cedam ao movimento de sua massa disforme. Quase engraçado. Nos intervalos musicais desritmados percebe-se o silêncio. Este é mais ensurdecedor que as pick-ups potentes. Fica claro o tal peso do silêncio que sempre insisto em quantificar. Um atrás do outro balançando ao som do exctasy. Uma massa em busca de diversão. Huxley foi um visionário. Orgulharia-se desse admirável mundo novo.

Se não fosse pela senhora que recolhe o lixo o tempo todo eu estaria perdido. Ao menos ela dispensou a mim um pouco de atenção. E eu a ela. As quatro da matina ela passou pela última vez. Me enfiou naquele saco e me levou embora. Junto com aquele cara que comigo, procurava personagens por compulsão.