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Depois de 129 dias arrastados em meio a calor, chuva, mofo e multidão, o morto resolve se levantar e ir fazer essas coisas de mortos normais. Feira.

No meio do furdunço,  o morto de olhar astuto  apresta, entre restos de peixe, peles de frango molengadas pelo quente, pés de porco expostos com unhas e sangue, tapiocas, pastéis e tererês, que as mulheres-fruta estavam, se não um pouco passadas, com cara de muito azedas.

Como o morto é lá bem moço de fino trato, resolveu perguntar às fofoletes o que poderia fazer para apaziguar o furúnculo anímico que as impedia de sentar de popozão inteiro sobre esta efeméride que é a vida.

A resposta foi básica, simples e objetiva (como não poderia deixar de ser):

– Oi????

Nunca se viu um morto desistir tão fácil assim da vida.

– Você conhece aquele cara que tá olhando pra cá?

– Não.

– Meu, mas ele não pára de olhar, caramba!

– Pô, deixa o cara olhar. Ele tem olho, oras.

– Vai ver é viado.

– Vai ver é neonazista.

 

(silêncio)

 

– E daí?

– E daí o quê?

– E daí se ele for neonazista?

– E daí se ele for viado?

– Se ele for viado explica ele olhando pra cá.

– E…

– E se ele for neonazista tá olhando pra cá porque? Deve tá achando que a gente é  que é viado.

– Meu, pára com isso.

 

(silêncio)

 

– Cara, eu vô lá tirar satisfação.

– Vai lá!

– Ué, você não vai tentar me impedir?

– Claro que não. Nem te conheço.

– Como não, cara? A gente tá aqui nessa fila tem mais de meia hora. E já tamo até trocando idéia.

– Eu, heim… paulista é tudo louco.

– Ah tá! E você é o quê? Carioca, mermão?

– Não. Sou neonazista. E você?

– Eu sou viado.

– Porra, vá a merda!

 

 

 

Lancei mão de eufemismos e os revesti de carne minha, já que estou de vestes e pensamentos embebidos por você. Eu sempre fui assim, tábula rasa a espera de um amor que me vaste, me baste e que me varra para longe de mim. E assim continuarei sendo, menino fujão que se esconde a frente de um devir. A busca é o que me faz. E nela, doente, me encerro.
 
Te agradeço por transformar minhas águas em derramamento de bons fluídos. A você devo boas lágrimas, boas salivas, doces gozos. Te devo o desejo de seu gosto e a bela imagem que tenho de seu olhar-sorriso. Gosto de imaginar que me olha quando finalmente durmo. Gosto de sonhar que te olho enquanto descansa com respiro quente em meu peito. A você oferto todas as belas manhãs dormidas de domingo, os ventos mornos com cheiro de mato em passeios no parque com meus cães e meu passos. A você devo minha viagem de nova vida: povoa todos meus bons devaneios de agora em diante. Gosto de imaginar que é só minha imaginação.
 
Este é o último e doido contato que mantenho com você. É que me fiz torto, e de forma torta respeito a retidão de seus desejos. Você é o melhor do mundo que vejo. E não quero te fazer tão desnorteado quanto o resto de mim. Você é cerâmica bruta e rara, é vaso de origem cara e de tão escasso não pode ser maculado. Te guardo belo e aceso em mim. Até que eu seja capaz de ser tão belo e tão aceso quanto você. Quando chegar este dia seremos apenas Um. E Um é supremacia máxima e inatingível de Dois.
 
Um dia eu apareço. Um dia você aparece. Um dia, quem sabe, pareceremos.

Ontem eu tive a impressão de ter visto uma bromélia. Enfim, pra ser sincero eu não sei bem se era, já que eu acho que nunca vi uma bromélia antes. Mas eu estava passando perto de sua casa e me lembrei daquele dia em que seu tênis desamarrou e estava chovendo bastante e eu parei pra amarrar. E me ajoelhei e sujei todo meu joelho de lama e você pra me sacanear tirava o pé toda hora e eu comecei a correr atrás de você. Nos sujamos de barro naquele dia e pelo que me lembro não tinha nenhuma bromélia por lá. Ou podia até ter, já que eu não sei se antes disso eu já tinha visto uma bromélia. Nós rimos tanto naquele dia da chuva porque você passou um dedo de barro no meu rosto e eu passei um pouco de lama em seu cabelo, ou acho que foi o vinho que tínhamos tomado sob aquele sol frio de outono, ou foi o riso frouxo que sempre fez parte do nosso repertório de músicas bregas, ou sei lá, só rimos porque estávamos felizes naquele dia de chuva em que seu cadarço desamarrou e eu abaixei para amarrar. E tomamos banho de chuva pra limpar a lama do rosto, do joelho, do pé, do cabelo. E enrugamos os dedos de tão molhados. E ficamos nos beijando na garoa. E corremos como loucos atrás de um chuveiro quente. E naquele dia eu fui tão feliz que doía demais o medo de não ser tão feliz no dia seguinte. E eu não sei se fui. Não… não sei se me expressei bem. Não é que não tenha sido feliz em outros dias. É que não sei falar de outros dias tão bonitos como aquele. Assim como não sei falar das bromélias. É que não sei se já as vi. E não sei se os senti. Mas eu acho que vi uma bromélia hoje. Que eu nem sei se era uma bromélia de verdade.

Era um dia estufado, de estufa, de abafado, de calor descompassante, de grudento descomunal. E era quase tarde, quase cedo, era aquela hora do dia em que nada ainda se definiu, mas já se está atrasado para todo o resto. E o resto quase queimava.

De mim saia todo o suor, todo o branco e toda a paciência. Ficava uma pele vermelha, um pano preto, e eu pingava ocre. O silêncio era de buzinas poeirentas que azucrinavam o ar pesado de uma cidade sem mares. O ar era óleo. Neste tempo não há mar em mim.

Ele chegou como agosto. Não como os agostos desgostosos de minha sina-tradição familiar, que insistiam em invadir setembros tantas eram as más notícias daqueles tempos infernais. Mas um agosto de férias colegiais infinitivas, como as tardes agostinianas das quintas-feiras amornadas pelo ar refrigerado dos cinemas impuros, enquanto trabalham os outros mortais. Ele chegou como um espaço no tempo do atarefado, me roubando mais tempo, e com um abraço tão quente quanto o meu. O ar era areia. E nesta sombra não havia teto em mim.

Então.

Pois é.

O silêncio é um olhar que pesa e nauseia, pensava eu.  E a saudade é terra seca que se aperta e empoeira o ar, devia pensar ele. Éramos amores de tempos de outrora, ou passados de um presente que não chegou. Daí era só baixar a pressa. Afagar amenos. Dissimular contradições.

– Sábado começou a era de aquário, né.

É?

É. Aquela profecia do Hair, dos planetas se alinharem e tals…

Legal.

Que não sou apenas um, precisava dizer aos berros depois de me desviar dos olhos pretos, quase opacos, que boiavam num avermelhado que deveria ser branco. Que eu fui quase você, pensei gritar enquanto o suor fazia arder e irritava a mim e ao olho dele. Colocou os óculos escuros. Nessa hora quase ventou. O ar era carne. E no encontro não há mais sangue em mim.

Fomos tragados.

Talvez.

Silencio.

Se incomoda se eu for embora?

Silêncio.

É que estou com muito calor.

Silêncio.

E saí em direção ao asfalto derretido, às imagens distorcidas pelo quente que sai do piche. Eu precisava voltar a amar essas condições repetidas de todas as manhãs. Dessas condições tão repetidas. De se repetir todas as manhãs. Repeti isso um milhão de vezes: condições… repetidas… E então o ar era concreto. E no desencontro não há mais chão em mim.

 

Enquanto esperava, calado, a construção de seu mausoléu, o morto chupava tangerina e mirava em castiçais vazios tentando acertar bem no gargalo o caroço. Nunca se viu morto com tão boa pontaria, muito menos com força igual na cusparada. Tivesse o morto descoberto tal talento em vida, sua sina bem que poderia ter sido diferente e talvez hoje fosse um pouco menos morto. Artista de circo, quem sabe. O Incrível Vivo Cuspidor de Caroços seria o título moral de seu legado. Se soubesse disso, o morto antes de morrer teria batalhado para que esta fosse uma modalidade olímpica, que lhe renderia nove medalhas de ouro numa única edição. Teria lecionado o glutão esporte aos garotos pobres do semáforo, aos filhos da elite branca paulistana, aos pequeninos natimortos e aos abortados em geral. Popularizaria o Cuspe de Caroços em Castiçais tal qual Xadrez que abandona a monarquia. Sim, é obvio que teria ganhado muito dinheiro com as classes mais abastadas a ponto de pagar suas excentricidades, mas não se esqueceria de suas origens. Tudo isso teria sido muito bom, se o louco tempo se permitisse ser assim: um invólucro de vontades, um abre e fecha de tempos em tempo, um poder atemporal de poder ser tempo a qualquer tempo.

 

Mas estava mesmo morto e o tempo já fugira à sua realidade. Resolveu parar de devaneios e simplesmente inovar o sonho: trocou o castiçal pela nuca do padre que chegara para lhe encomendar o corpo. Afinal, quem mandou ele chegar antes do tempo?

 

Com olhar contemplativo ou complacente o morto olhava o seu umbigo. Era um umbigo interessante para esta altura do campeonato. Nem estufado, nem escondido. Ambigüo. Arriscaria dizer o morto que seu umbigo era viril de uma virilidade um pouco suja. Ou talvez um umbigo pueril graças a essas dobrinhas que dão vontade de morder. Pensava até no umbigo adolescendo devido aos raros pêlos que o umbigo tinha ao seu redor. Imberbe o umbigo do morto. Ou pelado de calva velhice. Tocou seu umbigo o morto e, ao contrário do que esperava, não era um lugar gelado como de fato, pela ocasião, pela convenção e pelos conformes, deveria ser. Pensou o morto um pensamento quase vivo que se o umbigo era a única coisa viva do morto era no umbigo que o morto gostaria de morrer. Como problema de morte não era lá coisa boa pra morto pensar, ficou calado um dia todo, abalado com essa história de falecer. O morto malogrou pensar no fim. Mesmo sem querer ser bastião, desses que abraça fácil seu destino, entendeu que não podia mais deixar de morrer. Escreveu então uma carta de recomendação, caso um dia, deus o livre, credo em cruz, acontecesse com ele esse negócio, não fizessem ao morto aquilo que não se podia fazer:

“Se um dia eu morrer, quero jazer em meu umbigo: lá estão só as coisas que me valem a pena, das quais não vale a pena escrever”.

Desde o dia em que morreu não era mais o mesmo. Alheio às buscas rotineiras por prazer, sempre era visto abatido, indisposto, nauseabundo. Nem de longe lembrava o bon-vivant de outrora, divertido e bonachão, que a todos cativava.

Depois da morte  passava os dias deitado. Não se preocupava mais com os amigos e não  era mais visto inquieto pelas portas dos velhos teatros da cidade: abandonara, afinal, toda a sua viva rotina.

Comentavam todas as bocas, boas e más, o seu estranho e inesperado comportamento. Mas nenhuma pessoa — nem boa nem má — intervia nessa situação.  Por mais que pensassem em sua condição, almejassem de alguma forma ajudar, acabavam sempre por concluir que isso era lá com ele, que era problema dele, que ele é quem sabia com quantos paus se armava sua canoa (ou com quantas ripas se erigia o seu caixão), quais eram as cordas que afinavam a sua viola… E como bocas nunca se satisfazem, descambavam à crítica satírica e bisbilhoteira, a ponto de dizer que estar morto não era motivo para tal mudança, que amigos como eles não se destrata assim, onde já se viu. Afinal, viver para a morte não nos toma a maior parte da vida?

Em meio a todo esse diz-que-diz, apenas um velho conhecido teve o corajoso discernimento de resolver a questão: foi ter com ele e, sem papas na língua (uma das boas), tascou-lhe um que raio de cara é essa? está me deixando precoupado com tanto silêncio! será que a morte é o fim de tudo, meudeusdocéu?

A voz um pouco rouca e claudicante não buscou palavras difíceis para quebrar o silêncio típico e inquietente daquele que espera uma resposta: Só preciso de um pouco mais de tempo, já que a morte é de difícil habituação.

Aos poucos o morto voltou a perto do normal. Tem retomado a boa disposição de outrora e quase todos ficam satisfeitos. Sim, quase todos, pois alguns já haviam escrito longos obituários e apostavam de quem seriam as mais belas palavras do epitáfio.  

 

Trabalhava num banco e vivia angustiado. Um dia teve coragem e tomou a decisão que achava certa: largar tudo e correr o mundo em busca de si. Queria se conhecer. Livros de auto ajuda sempre lhe disseram que não era quem pensava: ele poderia ser mais! Viajou por todos os cantos do hemisfério e em todos os lugares que passava perguntava a desconhecidos por si. E sempre a mesma resposta: Nunca vi!

Alguns anos e infinitos mantras depois, cansado, regressou ao ponto de partida em crise com o Dalai Lama: ainda não sabia quem era. Angústia persistente. Decepções íngrimes. Desconforto lacerante.

Ao perceber aquela massa esguia e disforme se aproximar, a velha vizinha do 134 não teve dúvidas,  saudou-o com êxito, bronca e vento entre os dentes:

Creidysson, viado!! Ocê deixou a Vanlúcia embuchada e sumiu, seu sarnento!!!

Sentiu um alívio intenso e imediato! Sua busca por si terminara ali mesmo.

Olhei-o enquanto atravessava o portão de desembarque: alto de uma altura esguia que beirava o proporcional, olhos negros arregalados por novidades  que combinavam com seus cabelos quase raspados. A apreensão em seu andar era nítida,  assim como o futuro oculto em pez que insistia em deixar nervoso um semi sorriso. É bem provável que não tenha me visto logo de cara graças à sua hipermetropia (que descobri bem depois) aliada à sua vaidade (essa descoberta bem antes) que obrigavam seus óculos a perderem-se na mochila.

Ele foi azul-marinho a princípio. Calça jeans escuras, camisa só um pouco mais clara e uma jaqueta azul. É provável que estivesse com sapatos marrons de bico arredondado — até hoje ele sempre compra sapatos marrons de bico arredondado — mas isso não posso afirmar com precisão.  Não me lembro com que roupa eu estava. Só me sei revestido de um formigamento morno sobre a pele em sobreposição  a uma palpitação jovial, de listras pollyannas assinadas por Eleanor H. Porter: um modelito deveras atípico. E ele era de um azul-marinho quase lascivo.

Preferi acompanhá-lo minutos com os olhos antes da abordagem. É bem provável que por trás de seu  olhar  assustado (e só naquele instante assustado e adulto) que lançava em todas as direções, sua pirilampice esquizofrênica herdada de Woody Allen o fazia imaginar-me um bobo, com cartaz em punho escrito seu nome, com flores nas mãos (até  com um apito talvez), e que ao sairmos do saguão de desembarque daríamos de cara com a Ponte do Brooklyn.  Em sua imaginação o Rio East de Manhattan faria cenáro a um beijo apaixonado e definitivo. Mas isso também não posso afirmar muito bem.

Talvez eu não o tenha abordado logo de imediato por cerimônia. Outrora fui religioso e depois de um tempo na religião torna-se difícil desatar o vencilho de algumas tradições. A tradição da despedida é a que mais se manifesta em mim. Pulula sem permissão.  Me despeço obcecado de tudo com  antecipação. Faço tudo em minha mente findar-se pra agora mesmo e já. Penso no fim de tudo com uma dignidade castelhana — diria Voltaire — a ponto de acreditar que o final mais plausível para minha vida seja dar cabo dela com um peteleco no pomo-de-adão (e é bem provável que eu tenha roubado essa idéia dele). Demorei na abordagem para despedir-me, medroso, de uma vida não minha. E fiz isso bem rápido por sinal, já que dez minutos depois de sua chegada não me lembrava mais da vida sem ele.

Antes do encontro precisei me certificar que estava mesmo perto desse presente ambígüo que é  a possibilidade do amor.  E tremer como vara verde era o clichê que faltava para ter a certeza do inevitável.  Surgi desengonçado (e só naquele instante eu mais do que ele) em sua frente  sem saber se estendia a mão, abraçava ou beijava. Típico desencontro de primeiros encontros. Acredito que o abracei de um abraço tão longo e tão apertado e tão saudoso, mas é bem provável que só tenha estendido a minha mão.

– Oi!

E nessa hora eu quase agradeci a deus. Seria bonito. Mas eu já tinha matado deus fazia muito tempo.

Pulou do décimo segundo andar, o infeliz. No meio do trajeto desistiu. Quem quer morrer, morre pianinho e ele começou a gritar como uma gazela no cio antes do sétimo. Levou meio segundo para se arrepender do salto. Durante o trajeto, entre um soluço e outro, tentava quantificar a distância entre toda atitude e o arrependimento.

Por sorte havia uma árvore interferindo na distância entre ele e a morte. Fez uma forcinha pra direita e conseguiu amortizar a queda. Ralou-se todo num galho mal podado. Quebrou a perna ao cair sobre um arbusto. Sobreviveu. Mas acabou tomando uma coça do camelô que se assustou com o barulho. Ninguém o ajudou a levantar. Riram dele naquela situação.

No chão, se lembrou dos motivos que o fizeram pular: era um artista sensível! Sua arte soberba o obrigava a carregar nos ombros todas as mazelas do espírito humano. Diante de mais este fracasso se ocuparia em divagar sobre o arrependimento de ter se arrependido, sobre sua não-coragem ou toda a não-alegria, … Subiu os doze andares manquejante. Chorou desolado ao se deparar com a porta do próprio apartamento trancada: as chaves ficaram do lado de dentro.

Sentado num degrau qualquer, pensava em ostentar mais esta mazela em troca da piedade alheia. Talvez um texto num blog fosse uma boa maneira. Quem sabe divagar sobre a distância entre qualquer atitude e o arrependimento? Afinal, tinha que tirar algum proveito da situação. E, sabe-se lá, angariar alguns aplausos no final.

O que espertou Virgínia, além do horribile gustu de corrimão de metrô na boca, foram os Versos Íntimos de Augusto dos Anjos meio cantados num tom indecifrável e sibilante por uma voz incomum: “Vês?! Ninguém assistiu ao formidável enterro da tua última quimera…” De fato, ela ansiava que ninguém tivesse assistido. Ansiava somente a ingratidão pantera como única companheira daquela noite.

No susto abriu os olhos. Se arrependeu. Cerrou-os burlescamente tentando se lembrar de todos os passos do dia anterior. “Um horrendo dia de trabalho na Livraria Cultura e depois uma espairecida solitária num barzinho dito cultural nas imediações da Paulista, mas que na verdade, é freqüentado por um bando de pós-yuppies metidos à artista com aquela irritante mania de citações das obras do underground.

Lembrou-se da primeira cerveja, ainda solitária, ao som de Jeorge Benson. Da segunda ao som do violão lacerante de Yamandú Costa. E depois, durante a seleção do Moska, alguém lhe ofereceu martini doce. Não conseguiu recordar de mais nada. Nem onde havia guardado o Mrs. Dallaway que teimou em levar a tiracolo. Sim, Virgínia Woolf, sua xará e dona do seu estro, vomitaria se soubesse que ela deu praquele poetinha mórbido, urbano e desprezível que tinha a mania de, depois de algumas doses, subir numa mesa qualquer e recitar obras incompletas ou plagiadas que teimava em dizer que eram suas. Sim, ela deu.

A coitada não agüentou. Chorou enquanto escondia com o lençol a pequena bunda branca que existia entre suas estrias.

Tomada pela angústia de Clarissa Vaughn, resolveu voltar pra Igreja. Lá ao menos o padre era parecido com Ed Harris e a cultura parava nos gritinhos histéricos de “somos tão joooovens” acompanhados de, no máximo, três acordes simples num intervalo do grupo de jovens.

Eram 19 horas e o sol ainda morenava a minha pele. Estava lá plantado há uma hora e meia e nada dela chegar. Desisti de esperar. Resolvi ir embora caminhando. Precisava esfriar as idéias. Cheguei em casa e não pensava mais nela. Liguei a TV. O apresentador do telejornal falava algumas baboseiras sobre um acidente. Esse tipo de assunto já não me descia mais a garganta. Violência, acidente, mortes, taxa selic… Estava tão cansado e não sabia se era só por isso. Desliguei a tv e fui pra uma ducha fria. O dia fora cansativo e eu não pensava mais nela. Não queria saber porque ela não apareceu. Nenhum pensamento povoava a minha cabeça. Nenhuma dor sem nome me invadia.

Mandar um email pra ela? Não, nem pensei nisso. Liguei o computador e esperei. Ainda bem que apareceu um outro amigo e não ela. Papo bom. Conexão de vento em popa. Já tinha até me esquecido de não pensar nela quando ele toca no assunto: e ela? Respondi que não sabia, que nem lembrava mais dela, que pouco me importava… Mas eu vejo comentários dela no seu blog… Bah! Mas eu nem ligo mais! E os seus comentários no blog dela? Não sei… Sem resposta me despedi. E fui dormir sem pensar nela.

Fiz questão de não sonhar com ela. Mas sem permissão ela apareceu em meu sonho e nele fugia de mim como o diabo da cruz. Ou como a cruz foge do diabo, sei lá. Acordei de sobressalto. Transpirava mais que o normal. E o nome que me veio a mente ao abrir os olhos não foi o dela. Estava faminto. Fui à geladeira mas não achei muita coisa. Há um tempo eu não fazia compras. Não porque eu esperava que ela chegasse para me ajudar, mas porque… porque… oras, não havia um porquê. Não fazia compras há um tempo e pronto! Tomei um copo de leite. Não senti a mínima vontade de ligar o computador. Não tinha motivos para abrir meu email. Muito menos para ficar chateado por não receber nenhuma mensagem dela. Dela quem? Quem era ela?
De qualquer forma, meu email ficou aberto o resto da noite. Não que eu esperasse uma mensagem dela. Eu nem pensava, nunca!, nela. E sem saber porquê fiquei ali até amanhecer em companhia do F5. O tempo todo, F5.

Com o dia já claro, depois de muito custo, me lembrei dela. Lembrei-me também do acidente no notíciário da TV. Mandei um email só para saber se estava tudo bem. A mensagem retornou.

Chorei quieto. Sem nem saber por quê.

Estava lívido, mas não perdia a oportunidade de ruborizar as donzelas presentes com meia dúzia de palavrões. Estava hirto, mas hora ou outra disparava a beliscar bundas em todas as direções. Estava silencioso, mas tinha rompantes de falatório pelos cotovelos. Estava morto, mas a cueca insistia em lhe adentrar o rego.

As pessoas que de coração partido vieram para o velório, começavam a se sentir incomodadas. Comentavam entre si que, se ele continuasse com toda aquela firula, não acompanhariam o cortejo fúnebre até o cemitério:

Ele tem de se comportar com toda a pompa que exige a situação! Onde já se viu tal infortúnio?

Mas ele continuava. O papel principal naquela cena dantesca lhe causava um frisson inexplicável. Tinham que ser compreensivos. – Não há como parar quieto!

Os presentes então resolveram assinar o livro de condolências e nele registrar o seu protesto. Saíram um a um até deixá-lo só em seu próprio funeral. Desumanos.

Ele, com ares de nem-te-ligo, sacudiu os ombros e pouco se importou. Continuou morto e sentado pirilampo ao caixão, balançava os pés cheio de vida. Era, de fato, um cadáver muito esquisito.

A essa altura os joelhos quase sangravam.  
 
Cumpriu todos os ritos naquela posição que a deixava com a perna dormente. Permaneceu concentrada. Maculada e impotente diante à imagem da crucificação. Forçava-se, crucial, a acreditar em tudo que lhe foi dito na última hora e meia.  
 
Clamou por um socorro solicito, em silêncio, sem saber quem ouviria sua prece. Foi agraciada com, no máximo, duas ou três odes mal tocadas por um orgão triste de tom imperativo. Faces feias de expressões inquisitoras . Chales pretos em cabelos longos. Dedos em riste. Rito vazio. Clamava à virgem que a livrasse desses maus pensamentos. Lhe ensinaram assim. Dor ingrime. Angustia ansiosa. Solidão lacerante.  
 
Levantou-se. Teve medo de bambear mas caminhou firme em direção à fila de poucos crentes. Cética, chorava seca pela auto-mutilação do ego. Tentava se lembrar da falácia que precedeu o cume que estava por vivenciar – nada. A falácia lhe remetia a felação que sempre imaginava no púlpito. Uma ode niilista.  
 
Não lhe restou ninguém para impedir sua conversão.  
 
O meio-homem vestido de preto lhe enfiou o corpo na boca. Fez posá-lo em língua amarga e jaculou o nome do messias. Engoliu a seco. Deu as costas com aquela sobriedade pertinente aos suficientes e saiu sem receber a benção final.  
 
Nunca se sentiu tão condenada.

Não era um curso de pompoarismo qualquer. Era um curso de pompoarismo com técnicas tântricas e meditativas para uma fisgada transcendental do pinto alheio. Atingiriam um nirvana vaginal para uma melhor sucção no desempenho profissional. Sim profissional, já que as duas únicas alunas da Mestra Shan NaVir-hada eram putas. Putas zen, pudera, em busca de uma paz de espírito rara nesse meio.

Embora reflexivo, um curso de profundo auto-conhecimento, ênfase no orgasmo meditativo (sem toques nem gritos estridentes) e relevante quanto ao grau de auto-controle, as duas putas que lá buscavam evoluir viviam em profundo desacordo. Uma desarmonia que beirava as esquinas da Rua Augusta. Se uma afirmava certa coisa, simples que fosse, a outra de prontidão já negava veementemente e era uma discussão sem fim. A sábia Mestra só observava e expressava no olhar de deusa indiana a superioridade de quem formula teorias zen. Rhaum.

Certa manhã no Then-plo Mhayor, numa discussão mais acesa, uma delas empurrou vigorosamente a outra que estatelou-se no chão desamparada. A Mestra que passava por ali, observava a tudo desde o início. Aproximou-se da discípula caída e a ajudou a levantar. Pairava no ar um silêncio entrecortado por sinos-dos-ventos. Depois, dirigindo-se às duas, fitou-as intensamente nos olhos e as censurou com espiritual, pacífica e quase irritante superioridade:

– Quem não sabe controlar os seu impulsos, não pode controlar suas consequências. Meditemos profundamente com  os exercícios das bolinhas de ping-pong e vasilina. Rhaum.

As putas se entreolharam, depois encararam a Grande Shan NaVir-hada que quase levitava. Deram-lhe uma tremenda coça, embaladas por um novo mantra que entoava cadêncialmente soronos soc, tum, plofth!

Naquele momento encontraram a paz ao atingirem juntas um nivarana transcendental, um orgasmo uníssono vindo dos confins do cosmo.

Embriagou-se antes da meia noite. Acordou com o sol já alto violentando as frestas da janela e morenando um canto do seu rosto (se é que assim se pode dizer). Sempre tinha essa dificuldade em saber quem era quando acordava. Existiam várias versões dentro de si que insistiam em reclamar (todas ao mesmo tempo) de sua realidade. Lamentou ter perdido a queima dos fogos de artifício.

Envolto à ressaca, ficou a espera de uma memória, um acontecimento qualquer, mas nada aconteceu. Levantou cambaleante e fitou-se no espelho como se o hálito estranho viesse só do seu reflexo. Viu refletida uma imagem sem nenhum significado especial. Tomou a decisão de naquele dia ser Maria. Amanhã talvez fosse José.

Comemorou solitário o início do ano novo, sem prestar atenção que no calendário noivas sonhadoras abriam passagem para bodas de palha e remendos.

Um bebê recém nascido foi encontrado ontem numa esteira de coleta seletiva de lixo. De acordo com o funcionário que o encontrou, esse não foi o primeiro caso. Esse bebê já estava morto, mas em diversas vezes, outros foram achados com vida.

– Oras, nesse caso tende-se alertar a população que se deve matá-los antes de mais nada. Afinal, a vida não é um lixo que se atira em qualquer lugar.

Depois dessa declaração o funcionário foi despedido e em seguida foi apresentada uma queixa às autoridades competentes por apologia ao crime.

O homem ficou estupefato e profundamente triste. Digam o que quiser, mas que o humor negro é uma ferramente deveras incompreendida, isso é.

A oficina estava cada vez mais aborrecida e mesmo assim ela concentrou todos os seu esforços para se manter atenta. Pôs a coluna numa postura rígida, esbugalhou os olhos e cerrou os dentes. Faltando dez minutos para a oficina acabar teve de ser conduzida com urgência a um posto médico para receber os cuidados necessários para voltar ao normal. Um absurdo.  

No início da oficina foi pedido para que todos se apresentassem com essas miudezas escêntricas que todo mundo possui. Quando chegou sua vez, a moça não conseguiu dizer nada, nem mesmo o seu nome. E isso disse muito sobre ela, mesmo tendo atrasado bastante o início das atividades.  

Existe algum sentido nos outros sentidos ante uma gozada bem dada?  

Era assim que justificava sua compulsão. Sentenciava a mesma frase toda vez que estava no banheiro a bronhar-se voraz. Enquanto se batia, olhava no espelho. Ora ria. Ora chorava. Ora não pensava em nada. Quase o nirvana. Em alguma época se entediava e mal sentia o próprio toque. Mas não cansava da rotina. Inovava.  
 
De duas semanas e meia para cá mudou a técnica. Nem se lembra como teve a idéia. Sua vida era a inércia: deve ter assimilado por osmose. Além do mais, era broxante demais pensar no passado, procurar motivos, lembrar de fatos ou coisas assim. Presente ou futuro? Idem.  
 
Aquecia um pote de geléia maluca em banho-maria. Esperava dar uns quarenta graus. Corria para o banheiro balançando a banha presa por um shortinho de elástico. Chegava lá, enfiava o mísero membro no potinho com a figura de palhaço no rótulo e balançava, balançava, balançava… até atingir aquilo que repetiria durante toda a tarde. O quentinho da geléia maluca deixava-o de pernas bambas. Suava.  
 
De fora a esposa ouvia alguns gemidos secos e o chacoalhar de carnes remetendo tapas curtos. Uns três minutos e quarenta segundos, mais ou menos. Saia de lá e, mudo, voltava ao sofá. Fingia ler o jornal. Na realidade elaborava fantasias com a voz da Cátia Fonseca fofocando com a Mamma Bruschetta.  
 
A mulher suportava passiva. Só não concordava com o aumento súbito da conta que a família tinha no bazar do bairro. Que ele  ao menos  comprasse a tal geléia maluca, anônimo, na rua 25 de março!  

“No início era o Verbo e o verbo estava voltado para Deus.  E o verbo era Deus. Ele estava,  no início, voltado para Deus. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam. “

(Jo, 1-5)

 

– Psiu, psiu! Dá a bunda pra mim? 

Naquela manhã ao caminhar pelo Vale do Anhangabaú não pensava em muita coisa enquanto rezava o terço. Algumas feminices de mulher quase quarentona e de corpo em boa forma. Dessas que ainda moram com os pais, freqüentam bingos inofensivos no salão paroquial e brigam para continuar tocando violão no grupo de jovens aos domingos depois da missa das dez. Como estão caros os produtos da avon, será que uma blusa branca de babadinhos na frente combina com aquela minha saia de pregas colegial, quantos convites a liga das irmãs missionárias venderam para a festa do caqui, será que o irmão estava mesmo olhando para os meus peitos, cruzes! queima ele, Senhor. Fim do terceiro mistério. Pelo sinal da santa cruz… E antes do livrai-nos Deus, a surpresa. Deu ainda dois passos, depois parou. 

– Vamos! Dá a bunda pra mim? 

Era só dizer não e seguir em frente. Ou só ignorar. Afinal, era moça virgem. Católica por tradição. Mas esse era um pedido fora do comum. Um querer tão idôneo… Que veio numa hora em que tudo estava tão sem emoção. Um senducação qualquer escarrou. Eram as trombetas celestes num nariz assoado. Dentre os pombos sujos que ali buscavam restos, um era branco. Seu arrepio foi divino. Praticamente um sinal dos céus. Além do mais, nunca alguém havia lhe pedido assim, na cara dura. Na lata, como se diz. No máximo um namoradinho do ginásio que a cortejora durante três anos e um dia tentou enfiar um dedinho no grelo. Caramba! Ele não cortava as unhas. Arranhou. E foi merecido o tabefe. 

Mas esse homem não. Chegou do nada. Foi apertando o passo até chegar perto do ouvido e tascou-lhe um dá pra mim gostoso que fez ventinho no cangote e arrepiou até onde ela nunca imaginou que arrepiasse. 

– Vem, dá a bunda pra mim! 

Já não era mais uma perguntinha. Era quase uma ordem. O homem moreno, vestido com roupas simples e um tanto sujas exalava um cheiro de cerveja ao falar. Sua boca secou de uma forma tão súbita que não conseguia mais emitir nenhum som. Nem imaginou por quanto tempo ficou imóvel. As feminices deram lugar a pensamentos descontrolados. O que ele pensa que eu sou, sou de família, é cada tarado que aparece, e toma álcool já pela manhã, ali na frente tem um postinho policial, eu posso gritar, isso não se diz, deveriam ser proibidas as palavras desse calão, sujeito grotesco, olha lá todo suado, deus que me livre, se ainda fosse um mendigo eu perdoaria, mas parece trabalhador, vou dar um tapa, não! vou empurrar, não não, vou ignorar e continuar a rezar. Ave Maria cheia de graça… E antes do senhor é convosco foi espertada pelo volume que crescia discretamente na calça apertada do mulato. A passada leve de mão que ele deu sobre o membro foi decisiva. Era um novo sinal dos céus. Quase gritou aleluia. 

– Dou. 

Caminhou um bom bocado sem mais ouvir a voz do homenzarrão. Não havia percebido que o dia estava tão quente. Nenhuma palavra no trajeto até o Edifício São Vito. Durante o caminho tentou pensar em Cristo vertendo água viva no madeiro. Mas uma dessas fixações pasolinianas por pélvis não permitiu outro pensamento senão os mais impuros. Algumas vezes, do nada, um trecho de oração aparecia como um flash. Salve rainha. Uma salve rainha que agora vinha não como ladainha, mas como ovação. À ela. Em vez de coro de anjos, salve rainha era gritado por um monte de bichinhas a estimular sua imaginação. – Vai rainha, arrasa! – Transpirava. Tremia a carne. Salivava. 

Um quarto sujo de cheiro quente num prédio-cortiço onde a privacidade era luxo de poucos. Foi lançada na cama. Fixou olhar na pélvis que agora arreava o zíper. Gigantesco. Descomunal. E sem nenhuma unha. Boa pegada. Forte. Abre a boca. Gosto amargo. Vira de bruços. Lambida fresca na brasa. Dor de enxame de abelhas. Pára. Calma, já passa. Vai e vem com força. Tá doendo. Eu sei que você gosta, minha fêmea. Mais força. Tira de lá, bota na boca. Inunda que quase engasga. Fica de quatro. Não, aí não pode. Cala a boca. Dói. Fica quieta que vai ser bom. Entra com tudo. Arregaço e sangue. Dor de formigueiro. Relaxa. Vai e vem com força. Mais força. Inunda de novo. Dessa vez foi lá embaixo mesmo. 

Suas idéias cantarolavam. Se as águas do mar da vida quiserem te sufocar… E antes do segura na mão de Deus viu que uma platéia duns cinco mulatos carregadores do Mercado Municipal assistia a tudo com bocas e glandes a salivar. Teve um medinho gostoso. Desses medos sem vergonha de colegial em filme de Jhon Stagliano. Pela primeira vez estava a receber ordens fora do clero. Vieram um a um. Depois todos de uma vez. E a cada hora sentia uma dor diferente. Dorzinha gostosa. Um a um deixavam dez reais sobre uma mesinha ao lado da cama. Entre um e outro quase dava tempo de rezar um mistério.

Dividiu a féria do dia com o moreno do Anhangabaú. Amanhã, às dez no mesmo lugar. Era o início de um negócio promissor. Soube que ele se chamava João Batista só na hora de ir embora. Segurou na mão de Deus e foi. Ainda deu tempo de pegar a missa das seis.  

Anunciou à imprensa que já tinha um título e que iria escrever um livro. Quando lhe perguntaram qual seria o público alvo, respondeu que já tinha um título e que iria escrever um livro. Então lhe questionaram sobre o tema, sobre o que falaria, respondeu que já tinha um título e que iria escrever um livro. ‘E você não tem medo de que esse seja apenas mais um livro?’. ‘Já tenho um título e vou escrever um livro’.

Finalmente lhe perguntaram qual seria o título do livro. Constatou que isso ela não mais lembrava. Perturbou-se: era um título maravilhoso. Frustrada, lançou-se veementemente ao trabalho. Um ano depois já tinha em mãos um novo título. Reuniu a imprensa e anunciou:

– Tenho um título e vou escrever um livro.  

Ele gritou que a amava mas ela nem ouviu. Continuou a fazer o amor que fazia, concentrada por completo. Nada nem ninguém existia naquela hora. Ele, novamente, entre uma estocada e outra afirmou que a amava, agora com sussuros e lambidas na ponta da orelha. Os corpos saciados, estendidos lado a lado, e ela o ignorou. O gozo dela era mais prolongado. E sexo é sozinho, sexo é cabeça. Se havia uma coisa que ela jamais fazia era falar de amor durante o seu prazer.  

Entrou no quarto e lá ficou por uns vinte minutos de olhos fechados como se pra isso tivesse hora marcada. Abriu, olhou ao redor e fechou novamente. E despertando dum transe, aparentemente sem saber o que se passou, levantou e saiu.

Isso não soaria tão estranho se todas as pessoas ao seu redor não tivessem feito a mesma coisa.  

“Sente dores?”, ela perguntou num tom de voz impostado, meio indefinido. Teve receio de dizer que sim, na alma.  Era uma dor que o acompanhava desde que se aposentara do banco. Mas o que lhe doía em toda (ou nenhuma) parte do corpo era a solidão. Comia feijão de uma semana na geladeira e ainda lambia os lábios. Gostava de qualquer coisa, menos da solidão. Faltava-lhe a energia necessária para sair dela. Por isso estava ali, mais pela companhia que pelo diagnóstico.  
“No ombro”. Foi a única coisa que conseguiu responder sem deixar transparecer que  sua idosa voz estava embargada.

Aquela sensação de frescor causada pela falta da peça íntima revelava-lhe uma coragem absurda, que nem de longe imaginava ter.  

Antes de atravessar o quintal, borrifou sobre a pele um perfume suave de vanila. Abriria o apetite de sua presa. Molhou levemente a nuca e pulsos para amenizar o calor estonteante do interior paulista. Sem vento, assoprou dentro do vestido de tecido leve e estampado com flores tom pastel. Passou um claro baton. Retirou em seguida com o punho. Queria parecer primitiva. Livrou-se dos chinelos. Descalça seria mais selvagem. Despudorou-se, enfim, das peças íntimas, deixando as pontas dos seios marcarem o pano leve, provocante. As coxas abriam e fechavam. Olhava no espelho, com ares de devassa, as partes rosadas cobertas por pelos negros mal aparados. Era a libertação. Atravessar o quintal sem as amarras sufocantes das peças íntimas.  

O toque do pé na grama, excitou-a. Uma brisa morna adentrou o seu vestido. Sentiu calafrios. Que sensação maravilhosa – pensou. Descobriu naquela hora que o perigo aguçava-lhe a libido. O trajeto no quintal pareceu infinito. Infinitos dez passos da porta da cozinha até a porta da garagem onde labutava seu marido. De longe ouvia o choro manhoso de sua criança e sentia o cheio forte da lingüiça paio que cozinhava no feijão. O cheiro deixava insignificante seu perfume de vanila, mas nem de longe tirava-lhe o desejo. Rasgava-lhe o interior, o tal desejo. Sua carne tremia sobre os ossos de desejo. E o calor. Aquele calor da excitação que sobe pelos lados do pescoço deixava seu rosto vermelho e a pele mais quente. Sua respiração ofegante quase a impediu de falar:  

Não quer parar um pouco?  

O esposo estava sob um carro, concentrado num pequeno vazamento de óleo. Nem deu importância ao convite.  

Tá cedo ainda para comer – respondeu, grosso, sem desperdiçar a ela atenção.  

Pulou felina sobre o capô. Abriu as pernas. Começou a se mexer, balançando forte o carro suspenso apenas pelo frágil macaco. Passou a pular, ignorando as admoestações do marido. Era o puro prazer. Primitivo. Caprichou em seus esforços, fazendo o suporte envergar. Parou apenas quando escutou um grito medonho e o estrondo forte das rodas caindo ao chão. Ficou em posição de gata. Olhando para o chão desceu com cuidado, descalça, não queria manchar os pés de sangue. Saiu da garagem para atravessar saciada, sem as malditas peças íntimas, o quintal.  

Desta vez foram mais de dez passos. Não voltou a cozinha. Saiu pelo portão. Dentre suas pernas bambas escorriam algumas gotas de um líquido espesso. Baba de moça. Nunca sentira tão boa sensação.

Inesperadamente, após poucos meses de encontros, alguns desencontros, quilômetros em palavras intelectualmente dissertadas, conversas profundas, profanas e agumas horas (se somadas, dias) de espera, encontram-se na cama.  

Agora ali, naquela arena, não haveira uma citação cabível, uma tela de cinema, a crítica de um bom livro ou divagações sobre o divino que pudessem lhes distrair. Provavelmente não iniciariam, nus, uma conversa sobre literatura, política ou viagens. Não iriam, no ato, dialogar, nem trocar idéias.  

Sós, sem palavras nem frases, sem objetos nem roupas. Sem uma peça íntima ou artigo de revista para cobrir-lhes o que até então seria possível esconder um do outro: o corpo, a carne, os pelos, a pele.

Eis a hora que arriscariam fatos além de palavras. Um discurso de imagens com atos fálicos e cheiros. Seriam docilmente malvados um com o outro. Vadiariam cada um ao seu modo, de olhos fechados e concentrados. No corpo alheio, em zonas seguras onde acumula-se sangue pulsando. Se castigariam um tanto. Intrusos um do outro, dissolutos, soltos, saltos, soluços, suor, dor – só um tanto – gana, gula, pernas, braços. Uma ação, pulsão de dentro para fora e de fora para dentro, deixando-os no ápice fora de si. Susurros e um teto azul claro.  

– Aceita um cigarro??  

– Ué, mas nenhum de nós fuma…  

– Então pega aquele livro do Saramago ali pra mim!?  

– Qual? Não estou enxergando…  

– Ensaio Sobre a Cegueira.  

– Urgh! Prefiro o Baudelaire!

Ela: levanta de supetão arrebatada por um puxão no cobertor. Distribui socos para todos os lados mas apenas um certeiro. No maxilar do inimigo, próximo ao siso. Bem feito, mendigo que rouba mendigo não tem direito ao dente do juízo.  

Ele: quase pensa em palavras para desculpa, mas a língua amolecida pelo álcool só fez aumentar a baba. Depois de dois segundos nem imagina o que se passa. Cai. Não por mérito do bom sopapo. De bêbado. A valeta sob a marquise está tão convidativa…  

Mas o leito já tem dona. Então ela empurra, chuta, esbraveja e evoca o diabo. De nada adianta. Ele peida. Ela sente. Até que não é tão fedido assim! Deita junto. Se ajeita ao lado da roupa que ainda não estava molhada.  

Divide o cobertor, se encaixa em posição de feto, esfrega a bundinha, coisa e tal… E ereção noturna não é privilégio só de quem tem teto e viagra: foi meio enrabada ali. Sim, meio enrabada já que ele não acordou de todo e o sono enraizou no meio do bem-bom.  

E dormiram assim, calça arriada, pau meia bomba e cabeçinha enfiada. Ele acordou cedo sem entender muito bem, mas já que estava alí, acabou o serviço. Dessa vez ela é quem dormia. Ficaram na modorra, levantaram juntos, sorriram piche. Ele, delicado dobrou o cobertor. Ela, maternal ofereceu um pé de havaiana. Ele, pão duro. Ela, manteiga rançosa.  

Entrelaçaram as mãos e depois disso não se desgrudaram. Não precisam de nomes. Tampouco de uma nova valeta. Dividem tudo. Principalmente a riqueza de saber dividir uma vida.