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Dentro das sete caixas enfeitadas, todas fechadas com correntes em forma de trança. Cadeados em cores modais. Cada qual dentro de uma bolsa. Bolsas listradas em tons pastéis. Zíperes dé inúmeros tipos, de todas as marcas, por todos os lados. Cordas.  Armadilhas, ratoeiras, guilhotinas. Um lago gelado de águas turvas e perigos silenciantes entre as duas margens. Um fosso escuro do pior umbral. Placas e avisos claros, inúmeros cães raivosos. Um vulcão em erupção, um dragão, uma tradução de texto hungaro, uma contagem de trilhão, noite de insônia, fila de espera no calor.

Não se sai mais de lá. De dentro da menor matriuska.

Enquanto esperava, calado, a construção de seu mausoléu, o morto chupava tangerina e mirava em castiçais vazios tentando acertar bem no gargalo o caroço. Nunca se viu morto com tão boa pontaria, muito menos com força igual na cusparada. Tivesse o morto descoberto tal talento em vida, sua sina bem que poderia ter sido diferente e talvez hoje fosse um pouco menos morto. Artista de circo, quem sabe. O Incrível Vivo Cuspidor de Caroços seria o título moral de seu legado. Se soubesse disso, o morto antes de morrer teria batalhado para que esta fosse uma modalidade olímpica, que lhe renderia nove medalhas de ouro numa única edição. Teria lecionado o glutão esporte aos garotos pobres do semáforo, aos filhos da elite branca paulistana, aos pequeninos natimortos e aos abortados em geral. Popularizaria o Cuspe de Caroços em Castiçais tal qual Xadrez que abandona a monarquia. Sim, é obvio que teria ganhado muito dinheiro com as classes mais abastadas a ponto de pagar suas excentricidades, mas não se esqueceria de suas origens. Tudo isso teria sido muito bom, se o louco tempo se permitisse ser assim: um invólucro de vontades, um abre e fecha de tempos em tempo, um poder atemporal de poder ser tempo a qualquer tempo.

 

Mas estava mesmo morto e o tempo já fugira à sua realidade. Resolveu parar de devaneios e simplesmente inovar o sonho: trocou o castiçal pela nuca do padre que chegara para lhe encomendar o corpo. Afinal, quem mandou ele chegar antes do tempo?

 

Passou mais um dia sem saber que aquela dor que sentia era só mais uma dor sem nome, sem data de nascimento, sem fins lucrativos. Uma dor que passa no caixa do supermercado e não pede nota fiscal paulista, tampouco a dor tem cpf. Passou mais esse dia esperando que a dor fosse reconhecida por um desses rapazes que aparecem e te tiram o dolorido do existir, e mostram uma foto em preto e branco de uma menina silenciosa observando a partida de um balão colorido, e na foto só o balão é vermelho. Passou. Mais um dia. E ele só. Dormiu. Sem paz, nem rapaz. Sentia-se venenoso. “Chega”. Eram pensamentos lívidos. Pensamentos de madrugada.

– Gorda… rapaz… O Amor é Cego!!

– Não! hehehe

– Ah tá! É a Quadrilha, do Drummond!

– No!

Como não? Tem até a fila aí!

Ãh, Ãh…

– Baleia… cabeluda… Cuca!!  Sítio do Pica-pau Amarelo!!!

– Hum… não!

– Roda-gigante… fila… é o Playcenter??

Não, cara! Tá bem nítido, olha direito!

– Meu, olha esse desenho: fulano que amava sicrano, que amava beltrano, que amava a gorda que não amava ninguém! Só pode ser a Quadrilha, não existe outra possibilidade!!

– Caramba, Zé Mané!  Olha aqui, ó!

– Nossa, que pau mal desenhado. Mijo?? É filme pornô??

– Porra, Júlio! Cê tá muito lerdo… olha direito! É tudo muito claro!!

– Silvia Popovic?????

– (pafth!)

– Caralho, Will… Se não é a Quadrilha do Drummond é o quê, então???

– A Drag a Gozar, pô!!

((pra quem não conhece o filme é só clicar aqui))

Escreveu durante um ano e um mês, sem parar. Sim, nesse meio tempo fez outras coisas, é claro. Mas fez pouco. No mais escreveu, escreveu e escreveu. Até que um dia parou e levou diversas horas para ler tudo que tinha escrito com tanto afinco. Corrigia daqui, melhorava dali, mas não ficava satisfeito. Achava tudo um horror. Rasgou. Jogou tudo no lixo. Recomeçou. Uma, duas, três vezes. Vários anos e sempre o mesmo resultado: nada que lhe agradasse.  
 
Percebeu então a rotina adquirida e viu que não era o resultado que  importava. O que  aprezia sua alma era o processo. Escrever por escrever o  impulsionava a continuar escrevendo.  A rotina neste caso (mas não apenas nesse) foi o que de melhor pôde lhe acontecer.

Era um homem de roupas pretas e brancas. Um sobretudo preto, uma camisa branca, uma calça preta e de sapatos bicolores.  Por horas cheguei a questionar se ele não seria um homem de contrastes,  com estilo bem defindo,  um desses de papo bem descolado, meio neo-pós-punk-gótico-retrô. Um justiceiro do underground. Um saudosista dos filmes de Buster Keaton. Um dautônico em busca de segurança. Um triste clown a oferecer uma flor. Enfim, o que se pode retirar da observação que a imagnação não supere?

Coloquei então em seu relógio uma pulseira amarela e em seu lenço de lapela uma cor azul.  Pintei de vermelho os seus sapatos.

Resta-me descobrir a cor de sua alma.

Sempre que te espero lanço mão dessa mania boba de te inventar de várias maneiras. Mas são maneiras não-originais, que já existem, compreende? Há tempos não sou original. Te invento com as partes que gosto em você. Como hoje de manhã, por exemplo. Enquanto te olhava dormindo não pensava em nada e te inventava. Fitava sua mão na minha e imaginava nossos corpos vistos de cima,  de um outro ângulo. Sua testa quase tocava a minha. Agarrávamos, simultâneos, nossas mãos como se nelas estivesse o único porto seguro. Estávamos na mesma posição. Completávamos. Simétricos, éramos o único desenho perfeito dessa existência banal. E agora tento te inventar para te escrever. Dá pra entender por que não sou original?

Você é belo. É estético. Não falo da estética do belo, mas das vísceras da estética. É confuso? Não fui claro? Nem preciso… O sentido de estética é essa ruptura abrupta no espaço-tempo que me remete à reflexão do imaginário. E te imaginar real enquanto te olho é o meu passatempo predileto. Se todo o tempo da vida se resumisse ao que se passa quando em silêncio te olho, queria que tudo eternamente se passasse assim: parado.

Definitivamente sou um tolo. Um bôbo. Um bocó. Rio de mim em momentos como esse: quando quero descrever em palavras banais a essência do que somos juntos. É impossível! Nossas palavras ainda não foram escritas. Muito menos inventadas. Somos eufemistas! E esse nosso eufemismo é tão brega…

É interessante a forma como você me lança esse olhar. Intimista-sensorista-oposicionista-esquerdista-evolucionista-relativista. Uma classificação gramatical mais que composta. Bi-posta. Policomposta se existisse. Duma perfeição quase milimétrica se não fosse um olhar. Eu e essa mania minha de quantificação. Fico em parafuso quando não consigo traduzir em jaules ou decâmetros aquilo que vem de você. Quem sabe um dia eu te decante num laboratório de física e descubra o que você guarda detrás dessas moléculas biológicas de bolha de sabão.

Porque você sempre me escorrega.

Desnecessárias seriam as palavras. Agora, onomatopéias de prazer definem um ritmo que intensifica o ser único. Limites físicos incomodam. A dualidade sufoca: precisam ser um. A mão áspera e forte percorre a pele úmida por suor e chuva. O mais belo contraste: a aspereza e o macio. O fogo e a brisa. Eles.

Dentro dele teimava em crescer um desses medos que transformam todas as certezas em teoria do caos. Sua angústia era latente. Há dois meses não se alimentava decentemente. E quando dormia, quedas de sopetão em abismos furtivos o afastavam do sono medroso. Sensação de queda livre. Sensação de retorno brusco ao corpo. Essa era sua nova vida.

Me descobri estranho relativamente cedo. Muito antes de ser apontado. Esquisito, deslocado, desconexo. Com todos esses, digamos, predicados, me orgulho de ter sido o primeiro a me ver assim: estranho.

Isso (de ser estranho) ficou claro (mas não muito) quando percebi as crianças de minha idade procurando formar animaizinhos lúdicos nas nuvens. E eu, estranhamente, tentava ver meus monstros internos se formando em meu vômito.  
E eles eram lindos.

Enfim.

Essa talvez não seja a forma ideal de se começar uma declaração. ‘Enfim’ é conclusivo e eu não quero chegar a conclusão nenhuma escrevendo isso. Afinal, de que servem as conclusões se a alma que ama é uma seqüencia desorientada de infinitivos mal resolvidos, não é mesmo?

Mas de qualquer forma, eu queria agora selar algo difinitivo. Fazer dessas linhas abatalhoadas um tratado de amor inconcebível (falando duma concepção que a razão desconhece, é claro). Eu só queria que soubesse que o meu amor por você já é meu de fato, a mim pertence e não me decanto mais dele. E que lá na frente, no meu útimo leito, sobre o inventário incompreensível dos meus dois últimos suspiros, quero deixar bem clara a tradução:

No penúltimo vou dizer ‘Te amo’.

E no último, reconhecerei nossa eternidade.

Quando criança fez da matemática matéria preferida como método de fuga. Cheirava carreiras de expressões numéricas exatamente resolvidas sobre um reles espelho de números primos. Olhava de relance sua expressão triste que negava, deliberadamente, Monteiro Lobato, Cecília Meireles e Plínio Marcos.  
 
Comemorou o dia em que, depois de uma semi-overdose pitagorista, queimou com gosto e álcool todos os livrinhos – comprados com dificuldade por seu avô feirante, sob recomendação da professora de português – da Coleção Vaga-lume.  
 
Negou por boa parte da vida Bukowski, Nietzsche e outros eufémicos que seriam frisson entre os intelectuais pós-modernos. Jamais viria a conhecer Medina Reyes. Apregoava Neruda e Garcia Marquez como mero passatempo de mulheres solitárias ou de afeminados com propensão a Letras ou Decoração de Interiores. No radicalismo optou por Desenho de Construção Civil em seu primeiro vestibular numa escola técnica estadual. Passou. Engatinhava rumo à Engenharia. Era o segredo do sucesso. E da vingança.  
 
Vingar-se-ia, mesmo que no inconsciente, de Dn. Fernanda. Aquela senhora depravada que na terceira série expôs ao mundo seus infantis erros ortográficos em parceria com suas mãos trêmulas e suadas na hora da leitura. Sim, aquela senhora que escrevia palavrões escabrosos na lousa e que se negava a escrever ‘ticket’ com ck e t mudo. – …’Tíquete do mercadinho!!’ – bradava contra o mundo. Aquilo definitivamente não poderia ter sido professora de primário.  
 
Onde estaria Deus enquanto uma de suas crianças era ridicularizada por um simples ‘nescessário’ com ‘sc’?? Alguns dos algozes chicotes sobre a lomba de Cristo não poriam ser grafados com ‘x’?? Abraão de fato teria ‘conciência’ que estava a imolar seu filho e que se esquecera de um ‘s’ na palavra?? E a ‘bomba’ branca da paz?? Porque causava tantos risos??.  
 
Naquele dia a sensação aterrorizante que a ortografia lhe ofereceu ditaria seu futuro à Engenharia. Civil?? Química?? De Processos de Produção?? Pouco importava. Apenas provaria a Dn. Fernanda que não merecia o título de ‘o burro’ seguido e uma exposição pública naquela tarde quente e nauseante de 1985: seria um engenheiro.  
 
Quem, diante da maravilha de um cálculo quântico se importaria com a pequenez do som de ‘s’, ‘sc’ ou das terminações em ‘xis’ com sons de ‘zês’?? Com um diploma de exatas na mão nenhum erudito metido a intelectual ou mesmo uma professora de primário teimariam em discutir Marcel Proust ou Dostoiéviski com ele. E, se o fizessem, estaria desobrigado a divagar sobre. Lançaria mão de um nobre discurso, também cheio de citações, sobre as novas tendências dos cálculos de nós genéticos e quânticos de acordo com as teorias de William Tomson.  
 
Só que não esperava, ao menos naquela altura do campeonato, que uma simples entrevista no programa do Dr. Dráuzio Varela na RBI poderia derrubar-lhe do pedestal de tanta segurança. Uma neurocirurgiã anônima (uma pena! já que isso poderia render mais uma citação epistemológica!) lhe revelava – através da tela chamuscada por uma ventania na antena – que, todas as pessoas que sofrem de dislexia tem, além de vários outros sintomas, uma grave falta de coordenação para identificar de imediato os lados esquerdo e direito. Enfim estava explicado aquele ridículo número oito esboçado no ar toda vez que precisava orientar o motorista do táxi. Mas, além disso, estava desmistificado todo seu suposto amor as ciências exatas e inumanas. Seus erros ortográficos passaram a ser justificados por uma certa desordem numa dessas ‘ninas’ que permeiam nosso cérebro. Descobriu, naquela hora, que sua suposta burrice ortográfica ganhara status de uma elegante disfunção com direito a ‘xis’ ao som de ‘quiss’ – Dislexia!!! Poderia agora argumentar suas agruras literárias como defeito físico!!  
 
A matemática, embora sempre encantadora, já não lhe proporcionava o mesmo prazer orgásmico: fora promovida (ou rebaixada!) de paixão fugas de portão ao namoro de sofá com direito a sogro, sogra e pizza durante o Zorra Total. Kafka e Huxley passaram a permear seus sonhos (seres imaginários, esses, já que há muito alegava que escritores não existiam!). Pipocavam com intensidade. Era um bom e incontrolável inferno.  
 
Uma explosão?! – embora clichê, seria a única maneira de definir sua súbita paixão pelos livros. Ao lado à exatidão. Abraço às letras.  
 
Agora passa algumas vagas horas tentando recuperar o tempo perdido (com um q de frustração, evidente!), engolindo livros, um atrás do outro, desrespeitando todo o processo de digestão. Até se arriscou numa dessas ferramentas dos tempos modernos: o blog. E se lembra, agora saudoso e com um toque de sátira, de Dn. Fernanda quando algum leitor afoito lhe manda emails de correção.  
 
E tudo isso foi possível graças aos corretores ortográficos online.  Viva a tecnologia.

Acordei berrando um ‘O quê?’ assustado e ofegante.  Alguém gritou meu nome nitidamente. Bravo, como se fosse cobrar uma dívida. Tremi. O silêncio devia ter uns vinte e oito quilos e quase trinta e quatro graus. Tentei me localizar em alguma fresta de janela, mas como o apartamento é novo demorei a recobrar a oriente. Consegui. Graças a uma sirene estridente na rua e ao relógio do vídeo cassete piscando zero hora constantemente. Umas três e meia da madrugada, talvez. Eu não me lembrava de uma noite tão escura nos últimos tempos.  

Tentei sentir meu corpo dificultado pela dormência dos membros. Percebi que ainda usava sapatos. Horrível sensação já que cumpro religiosamento o ritual banho-perfume-pijama antes de deitar. Uma velha jaqueta de couro marrom me sufocava . Minhas mãos cheiravam a cigarro. O gosto enjoativo e anestesiante na boca denunciava o que já era evidente. Sede terrível. Tentei parar de tremer e respirei o mais leve possível para não macular o silêncio. Precisava saber de onde (e principalmente de quem) veio aquela voz.  

Não sei quanto tempo fiquei imóvel. Nenhuma voz. Nenhum berro. Ninguém repetiu meu nome. A urgência em urinar já me causava uma certa cólica na região pélvica. Percebi pela fronha que transpirava em bicas. Boca rachada de tão seca. Levantei grotescamente e um forte estrondo intracraniano me tombou novamente na cama.  

Então me lembrei de tudo. Aquela dor curvilínea no topo da cabeça. A vista embaralhada. O enjôo. Tontura e boca amarga. As câimbras. Tudo me remetia àquela velha bolota no cérebro. A iminência de morte súbita. A iminência de morte lenta. A iminência da morte me despertou e só permitiu que eu fixasse o olhar no teto.  

Seria de fato o teto ou meu olhar vagava na escuridão erma de um buraco negro? Estava de fato no meu quarto ou tentando regressar de um coma induzido? E se eu morresse naquela hora? Alguém me acharia a tempo de ser cremado antes da putrefação? Senti medo de ser enterrado. Ou de já estar enterrado. Me apavora a idéia de apodrecer. Seria lenta a morte de quem optou pela solidão? Seriam os auto-sufientes castigados com a ausência de choro e funeral? Alguém sofreria? E as dores? Meu Deus, quantas dores… Agora que tudo começou eu teria de ir ao médico. Raspariam minha cabeça. Abririam meu crânio com uma serra. Tico-tico? Elétrica? Ou seria uma serrinha manual? Lóbulo frontal esquerdo! Alguma parte direita do meu corpo perderia definitivamente os movimentos. Seria melhor morrer, então! Seria?  

Passei a numerar as pessoas que chorariam com minha morte e tive vontade de rir. Seriam penalizados todos os que me fizeram sofrer. O remorso calado seria minha principal espada contra cada um de meus algozes inimigos. E os queridos? Imaginei a reação de cada um. Como choraria a ex. Como gritaria a atual. Como se descabelaria a progenitora. Como ficaria o pearcing na sobrancelha da filha. O que divagariam os colegas de trabalho. E o que escreveriam em seus blogues os amigos virtuais. Voltei a progenitora: auto piedosa berrando sobre um caixão esbanjando dor em troca de atenção. Típico dela. Que boa vingança! E eu ria. Gargalhava me vendo no caixão. Nosferatu.  

Acordei com minhas risadas barulhentas. Dessa vez o sol já entrava pela fresta da janela e teimava em queimar um pedaço do meu rosto. Eu, atrasado como sempre. A verdade deixava de ter o lado lúdico de uma doença delicada com iminência de morte. A verdade voltava a ser uma banal ressaca. 

Choveu a noite inteira, mas não o suficiente para lavar a cólera daquelas últimas palavras. Sentou-se à beira da janela, acendeu um cigarro e deixou que o vento úmido levasse a fumaça. Continuou a chorar em silêncio. Tomou um vinho barato. Ligou o rádio-relógio. Não suportava o barulho solitário das buzinas vindas do cruzamento lá embaixo. E só chorou. Como nunca havia chorado antes.

Nos próximos dias persistirão as tormentas, mas há possibilidades de pequenas melhoras e em breve o fim dessa duradoura frente fria – informava a meteorologia.

O homem sentado à janela não deixou de chorar, mas o indício de um sorriso tímido abriu-se naquele triste rosto molhado.  

O relógio me tira das profundezas exatamente às 05:30 da madrugada. Queria voltar, mas esse meu abismo depois das badaladas não é mais tão profundo assim. Corpo dolorido pela tensão que não dá trégua nem durante o sono. Reviro tentando me deliciar em mais quinze minutos propositadamente adiantados no relógio, mas desisto. O corpo dói. E a perspectiva de mais um dia também.  

Sento na cama. Estico braços e pernas durante um bocejo e sinto dores mais fortes após o inevitável estalar de ossos. Enfio a mão na cueca. Esbarro na ereção matinal mas o meu destino é o saco. Aproveito alguns minutos para coçá-lo. Não penso em nada. E nem quero pensar. Coço lentamente.  

Não sei quanto tempo depois abro o criado-mudo e retiro o velho trinta-e-oito. Metodicamente, enfio a mão na pequena gaveta, apalpando até encontrar minha única bala. Respeitando a rotina, sem precisar acender a luz (já que o dia insiste em estuprar as frestas da janela), coloco o frígido metal no tambor e giro.  

Sem maiores expectativas encosto o cano na têmpora. Aperto o gatilho. Nem de longe estou esperançoso. Só ouço o seco click. Mais uma vez, só o click. Que tipo de barulho ouvirei no dia? Espero não ouvir.  

Devolvo o gélido ferrão ao lugar de origem. A ereção já passa a incomodar. Levanto. Dou uma boa mijada e me prepararo para mais um dia como escriturário do Banco do Brasil.

Em dez minutos o rádio-relógio te acordará.
Você dorme de uma forma bela, diferente, não sei… Nunca cansei de te ver dormir mesmo depois desses anos todos. Tua imagem não me cansou. Literatas palavras eruditas não me faltariam para te descrever assim, tão shakespeariana. Mas dispenso as belas formas em homenagem ao teu suposto sono.

Falta pouco. Hoje é o dia em que vou embora. Deixei para última hora o terror em te falar isso. Não sei falar essas coisas que te magoam. Em dez minutos te magoarei. Tem de ser ao acordar. Horas a mais aumentariam a tormenta.

O relógio me condena com o primeiro açoite. Pelo teu respirar sei que finge dormir tanto quanto eu. Viro para calar o contratempo e aproveito para te dar as costas. A primeira vez de muitas daqui pra frente.

Sinto seu beijo úmido em minha nuca. E esse sopro para resfriar a saliva me causa arrepios indefiníveis. Sua língua já tão bem acordada percorre meu pescoço. Estou teso, o misto de desejo e medo petrificam a ereção. Não há como negar o toque da sua mão. Meu corpo me condena e sempre teima em dizer o oposto do que quero falar.

Me fervilha a consciência e teus dedos me queimam o falo. ‘Deus, me deu o corpo para a condenação?’. Gostaria que nessa hora masturbasse a minha mente e que as palavras certas ejaculassem em gozo farto.

Mas não! Tua boca quente me amorna a brasa e deliro em suspiros numa contradição banal entre pensar e sentir. Os gemidos de angústia se misturam aos da leve dor do prazer. E eu ali, em momentos eternos a te corresponder em partes púdicas, comendo teus suspiros de gosto. Imaginando teus soluços de choro.

Me prende a pélvis pela boca como se esta fosse a última vez. E de fato é. Tenho alguns minutos antes de terminar. Tenho o tempo necessário para aprender a dizer as coisas que te magoam.

No ímpeto te seguro a cabeça e maldosamente me acabo antes que se afaste. O gosto meio amargo da agressão não foi o suficiente para que me odiasse. Como queria que agora me odiasse. Por hoje. Mas indevidamente me ama. E demonstra. E agradece. Como se abrisse o peito para uma primeira facada.

O olhar mudo é prenúncio.
Tem de ser agora.
As palavras ensaiadas durante a madrugada parecem perder o sentido ante a luz fraca que adentra a fresta da janela. Palavras de adeus têem medo da claridade. Eu tenho medo da claridade. Estou com vergonha de te encarar na luz.

– Tenho uma coisa pra te dizer.

– Psssss… Não precisa falar nada.

E antes que eu responda, me cala com um beijo amargo de gosto meu. Você sempre soube que hoje começaria o fim.

Aqui dentro fluía um desses pensamentos que transformam a voz desafinada em tristeza profunda. Mais uma vez eu dava as cara com um tipo de solidão apavorante dos abismos silenciosos que existe entre as pessoas. Deparava com a náusea de outrora que jurei banir de mim. Quebrava todas as minhas promessas dissimuladas de nunca mais me fazer infeliz.  

Era apavorante não olhar em linha reta. Aquele frio abdominal que claudica cólicas de medo não permitia que eu olhasse em reto horizonte. O olho declinava e encontrava só o abismo oculto em pez. Pensar no que jazia além dali era conveniente. Desviar o olhar da gosma espessa e quente que era ar, e trocá-la pelo negro materno dum reles buraco apocalíptico, era o que me cabia naquela hora arrastada. A eterna madrugada vagueava.  

Um cigarro. Um resto de cerveja quente e um tonel de silêncio nauseante. O vento frio da janela do décimo segundo andar. A avenida emudecida. Eu emudecido. E nada mudava. Era o que me restava: minha não-vida sempre no mesmo lugar.  

No hotel logo em frente luzes piscavam frenéticas. Conseguia prender a atenção imaginando o que acontecia naquele universo tertuliano. Flashes alegres me davam vontade de cantarolar uma música desconhecida. Eu já estive naquele hotel de mórbida felicidade aparente. Será que o quarto em que fiquei ainda existia? Os instantes que lá vivi de fato foram meus? Delirante, me perdia na profusão.  

Até clarear, a insustentável rotina de vida involuntária insistia em seu discurso. Era a minha ordem natural das coisas: esperava até amanhecer para que se cumprisse a sina enfadante da não-felicidade que me permeava.  

Em mais um dia, a inexistência.  
E de novo, eu não queria mais falar.