Lancei mão de eufemismos e os revesti de carne minha, já que estou de vestes e pensamentos embebidos por você. Eu sempre fui assim, tábula rasa a espera de um amor que me vaste, me baste e que me varra para longe de mim. E assim continuarei sendo, menino fujão que se esconde a frente de um devir. A busca é o que me faz. E nela, doente, me encerro.
 
Te agradeço por transformar minhas águas em derramamento de bons fluídos. A você devo boas lágrimas, boas salivas, doces gozos. Te devo o desejo de seu gosto e a bela imagem que tenho de seu olhar-sorriso. Gosto de imaginar que me olha quando finalmente durmo. Gosto de sonhar que te olho enquanto descansa com respiro quente em meu peito. A você oferto todas as belas manhãs dormidas de domingo, os ventos mornos com cheiro de mato em passeios no parque com meus cães e meu passos. A você devo minha viagem de nova vida: povoa todos meus bons devaneios de agora em diante. Gosto de imaginar que é só minha imaginação.
 
Este é o último e doido contato que mantenho com você. É que me fiz torto, e de forma torta respeito a retidão de seus desejos. Você é o melhor do mundo que vejo. E não quero te fazer tão desnorteado quanto o resto de mim. Você é cerâmica bruta e rara, é vaso de origem cara e de tão escasso não pode ser maculado. Te guardo belo e aceso em mim. Até que eu seja capaz de ser tão belo e tão aceso quanto você. Quando chegar este dia seremos apenas Um. E Um é supremacia máxima e inatingível de Dois.
 
Um dia eu apareço. Um dia você aparece. Um dia, quem sabe, pareceremos.

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