Era um dia estufado, de estufa, de abafado, de calor descompassante, de grudento descomunal. E era quase tarde, quase cedo, era aquela hora do dia em que nada ainda se definiu, mas já se está atrasado para todo o resto. E o resto quase queimava.

De mim saia todo o suor, todo o branco e toda a paciência. Ficava uma pele vermelha, um pano preto, e eu pingava ocre. O silêncio era de buzinas poeirentas que azucrinavam o ar pesado de uma cidade sem mares. O ar era óleo. Neste tempo não há mar em mim.

Ele chegou como agosto. Não como os agostos desgostosos de minha sina-tradição familiar, que insistiam em invadir setembros tantas eram as más notícias daqueles tempos infernais. Mas um agosto de férias colegiais infinitivas, como as tardes agostinianas das quintas-feiras amornadas pelo ar refrigerado dos cinemas impuros, enquanto trabalham os outros mortais. Ele chegou como um espaço no tempo do atarefado, me roubando mais tempo, e com um abraço tão quente quanto o meu. O ar era areia. E nesta sombra não havia teto em mim.

Então.

Pois é.

O silêncio é um olhar que pesa e nauseia, pensava eu.  E a saudade é terra seca que se aperta e empoeira o ar, devia pensar ele. Éramos amores de tempos de outrora, ou passados de um presente que não chegou. Daí era só baixar a pressa. Afagar amenos. Dissimular contradições.

– Sábado começou a era de aquário, né.

É?

É. Aquela profecia do Hair, dos planetas se alinharem e tals…

Legal.

Que não sou apenas um, precisava dizer aos berros depois de me desviar dos olhos pretos, quase opacos, que boiavam num avermelhado que deveria ser branco. Que eu fui quase você, pensei gritar enquanto o suor fazia arder e irritava a mim e ao olho dele. Colocou os óculos escuros. Nessa hora quase ventou. O ar era carne. E no encontro não há mais sangue em mim.

Fomos tragados.

Talvez.

Silencio.

Se incomoda se eu for embora?

Silêncio.

É que estou com muito calor.

Silêncio.

E saí em direção ao asfalto derretido, às imagens distorcidas pelo quente que sai do piche. Eu precisava voltar a amar essas condições repetidas de todas as manhãs. Dessas condições tão repetidas. De se repetir todas as manhãs. Repeti isso um milhão de vezes: condições… repetidas… E então o ar era concreto. E no desencontro não há mais chão em mim.

 

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