Enquanto esperava, calado, a construção de seu mausoléu, o morto chupava tangerina e mirava em castiçais vazios tentando acertar bem no gargalo o caroço. Nunca se viu morto com tão boa pontaria, muito menos com força igual na cusparada. Tivesse o morto descoberto tal talento em vida, sua sina bem que poderia ter sido diferente e talvez hoje fosse um pouco menos morto. Artista de circo, quem sabe. O Incrível Vivo Cuspidor de Caroços seria o título moral de seu legado. Se soubesse disso, o morto antes de morrer teria batalhado para que esta fosse uma modalidade olímpica, que lhe renderia nove medalhas de ouro numa única edição. Teria lecionado o glutão esporte aos garotos pobres do semáforo, aos filhos da elite branca paulistana, aos pequeninos natimortos e aos abortados em geral. Popularizaria o Cuspe de Caroços em Castiçais tal qual Xadrez que abandona a monarquia. Sim, é obvio que teria ganhado muito dinheiro com as classes mais abastadas a ponto de pagar suas excentricidades, mas não se esqueceria de suas origens. Tudo isso teria sido muito bom, se o louco tempo se permitisse ser assim: um invólucro de vontades, um abre e fecha de tempos em tempo, um poder atemporal de poder ser tempo a qualquer tempo.

 

Mas estava mesmo morto e o tempo já fugira à sua realidade. Resolveu parar de devaneios e simplesmente inovar o sonho: trocou o castiçal pela nuca do padre que chegara para lhe encomendar o corpo. Afinal, quem mandou ele chegar antes do tempo?

 

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