Com olhar contemplativo ou complacente o morto olhava o seu umbigo. Era um umbigo interessante para esta altura do campeonato. Nem estufado, nem escondido. Ambigüo. Arriscaria dizer o morto que seu umbigo era viril de uma virilidade um pouco suja. Ou talvez um umbigo pueril graças a essas dobrinhas que dão vontade de morder. Pensava até no umbigo adolescendo devido aos raros pêlos que o umbigo tinha ao seu redor. Imberbe o umbigo do morto. Ou pelado de calva velhice. Tocou seu umbigo o morto e, ao contrário do que esperava, não era um lugar gelado como de fato, pela ocasião, pela convenção e pelos conformes, deveria ser. Pensou o morto um pensamento quase vivo que se o umbigo era a única coisa viva do morto era no umbigo que o morto gostaria de morrer. Como problema de morte não era lá coisa boa pra morto pensar, ficou calado um dia todo, abalado com essa história de falecer. O morto malogrou pensar no fim. Mesmo sem querer ser bastião, desses que abraça fácil seu destino, entendeu que não podia mais deixar de morrer. Escreveu então uma carta de recomendação, caso um dia, deus o livre, credo em cruz, acontecesse com ele esse negócio, não fizessem ao morto aquilo que não se podia fazer:

“Se um dia eu morrer, quero jazer em meu umbigo: lá estão só as coisas que me valem a pena, das quais não vale a pena escrever”.

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