Desde o dia em que morreu não era mais o mesmo. Alheio às buscas rotineiras por prazer, sempre era visto abatido, indisposto, nauseabundo. Nem de longe lembrava o bon-vivant de outrora, divertido e bonachão, que a todos cativava.

Depois da morte  passava os dias deitado. Não se preocupava mais com os amigos e não  era mais visto inquieto pelas portas dos velhos teatros da cidade: abandonara, afinal, toda a sua viva rotina.

Comentavam todas as bocas, boas e más, o seu estranho e inesperado comportamento. Mas nenhuma pessoa — nem boa nem má — intervia nessa situação.  Por mais que pensassem em sua condição, almejassem de alguma forma ajudar, acabavam sempre por concluir que isso era lá com ele, que era problema dele, que ele é quem sabia com quantos paus se armava sua canoa (ou com quantas ripas se erigia o seu caixão), quais eram as cordas que afinavam a sua viola… E como bocas nunca se satisfazem, descambavam à crítica satírica e bisbilhoteira, a ponto de dizer que estar morto não era motivo para tal mudança, que amigos como eles não se destrata assim, onde já se viu. Afinal, viver para a morte não nos toma a maior parte da vida?

Em meio a todo esse diz-que-diz, apenas um velho conhecido teve o corajoso discernimento de resolver a questão: foi ter com ele e, sem papas na língua (uma das boas), tascou-lhe um que raio de cara é essa? está me deixando precoupado com tanto silêncio! será que a morte é o fim de tudo, meudeusdocéu?

A voz um pouco rouca e claudicante não buscou palavras difíceis para quebrar o silêncio típico e inquietente daquele que espera uma resposta: Só preciso de um pouco mais de tempo, já que a morte é de difícil habituação.

Aos poucos o morto voltou a perto do normal. Tem retomado a boa disposição de outrora e quase todos ficam satisfeitos. Sim, quase todos, pois alguns já haviam escrito longos obituários e apostavam de quem seriam as mais belas palavras do epitáfio.  

 

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