Olhei-o enquanto atravessava o portão de desembarque: alto de uma altura esguia que beirava o proporcional, olhos negros arregalados por novidades  que combinavam com seus cabelos quase raspados. A apreensão em seu andar era nítida,  assim como o futuro oculto em pez que insistia em deixar nervoso um semi sorriso. É bem provável que não tenha me visto logo de cara graças à sua hipermetropia (que descobri bem depois) aliada à sua vaidade (essa descoberta bem antes) que obrigavam seus óculos a perderem-se na mochila.

Ele foi azul-marinho a princípio. Calça jeans escuras, camisa só um pouco mais clara e uma jaqueta azul. É provável que estivesse com sapatos marrons de bico arredondado — até hoje ele sempre compra sapatos marrons de bico arredondado — mas isso não posso afirmar com precisão.  Não me lembro com que roupa eu estava. Só me sei revestido de um formigamento morno sobre a pele em sobreposição  a uma palpitação jovial, de listras pollyannas assinadas por Eleanor H. Porter: um modelito deveras atípico. E ele era de um azul-marinho quase lascivo.

Preferi acompanhá-lo minutos com os olhos antes da abordagem. É bem provável que por trás de seu  olhar  assustado (e só naquele instante assustado e adulto) que lançava em todas as direções, sua pirilampice esquizofrênica herdada de Woody Allen o fazia imaginar-me um bobo, com cartaz em punho escrito seu nome, com flores nas mãos (até  com um apito talvez), e que ao sairmos do saguão de desembarque daríamos de cara com a Ponte do Brooklyn.  Em sua imaginação o Rio East de Manhattan faria cenáro a um beijo apaixonado e definitivo. Mas isso também não posso afirmar muito bem.

Talvez eu não o tenha abordado logo de imediato por cerimônia. Outrora fui religioso e depois de um tempo na religião torna-se difícil desatar o vencilho de algumas tradições. A tradição da despedida é a que mais se manifesta em mim. Pulula sem permissão.  Me despeço obcecado de tudo com  antecipação. Faço tudo em minha mente findar-se pra agora mesmo e já. Penso no fim de tudo com uma dignidade castelhana — diria Voltaire — a ponto de acreditar que o final mais plausível para minha vida seja dar cabo dela com um peteleco no pomo-de-adão (e é bem provável que eu tenha roubado essa idéia dele). Demorei na abordagem para despedir-me, medroso, de uma vida não minha. E fiz isso bem rápido por sinal, já que dez minutos depois de sua chegada não me lembrava mais da vida sem ele.

Antes do encontro precisei me certificar que estava mesmo perto desse presente ambígüo que é  a possibilidade do amor.  E tremer como vara verde era o clichê que faltava para ter a certeza do inevitável.  Surgi desengonçado (e só naquele instante eu mais do que ele) em sua frente  sem saber se estendia a mão, abraçava ou beijava. Típico desencontro de primeiros encontros. Acredito que o abracei de um abraço tão longo e tão apertado e tão saudoso, mas é bem provável que só tenha estendido a minha mão.

– Oi!

E nessa hora eu quase agradeci a deus. Seria bonito. Mas eu já tinha matado deus fazia muito tempo.

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