Quando criança fez da matemática matéria preferida como método de fuga. Cheirava carreiras de expressões numéricas exatamente resolvidas sobre um reles espelho de números primos. Olhava de relance sua expressão triste que negava, deliberadamente, Monteiro Lobato, Cecília Meireles e Plínio Marcos.  
 
Comemorou o dia em que, depois de uma semi-overdose pitagorista, queimou com gosto e álcool todos os livrinhos – comprados com dificuldade por seu avô feirante, sob recomendação da professora de português – da Coleção Vaga-lume.  
 
Negou por boa parte da vida Bukowski, Nietzsche e outros eufémicos que seriam frisson entre os intelectuais pós-modernos. Jamais viria a conhecer Medina Reyes. Apregoava Neruda e Garcia Marquez como mero passatempo de mulheres solitárias ou de afeminados com propensão a Letras ou Decoração de Interiores. No radicalismo optou por Desenho de Construção Civil em seu primeiro vestibular numa escola técnica estadual. Passou. Engatinhava rumo à Engenharia. Era o segredo do sucesso. E da vingança.  
 
Vingar-se-ia, mesmo que no inconsciente, de Dn. Fernanda. Aquela senhora depravada que na terceira série expôs ao mundo seus infantis erros ortográficos em parceria com suas mãos trêmulas e suadas na hora da leitura. Sim, aquela senhora que escrevia palavrões escabrosos na lousa e que se negava a escrever ‘ticket’ com ck e t mudo. – …’Tíquete do mercadinho!!’ – bradava contra o mundo. Aquilo definitivamente não poderia ter sido professora de primário.  
 
Onde estaria Deus enquanto uma de suas crianças era ridicularizada por um simples ‘nescessário’ com ‘sc’?? Alguns dos algozes chicotes sobre a lomba de Cristo não poriam ser grafados com ‘x’?? Abraão de fato teria ‘conciência’ que estava a imolar seu filho e que se esquecera de um ‘s’ na palavra?? E a ‘bomba’ branca da paz?? Porque causava tantos risos??.  
 
Naquele dia a sensação aterrorizante que a ortografia lhe ofereceu ditaria seu futuro à Engenharia. Civil?? Química?? De Processos de Produção?? Pouco importava. Apenas provaria a Dn. Fernanda que não merecia o título de ‘o burro’ seguido e uma exposição pública naquela tarde quente e nauseante de 1985: seria um engenheiro.  
 
Quem, diante da maravilha de um cálculo quântico se importaria com a pequenez do som de ‘s’, ‘sc’ ou das terminações em ‘xis’ com sons de ‘zês’?? Com um diploma de exatas na mão nenhum erudito metido a intelectual ou mesmo uma professora de primário teimariam em discutir Marcel Proust ou Dostoiéviski com ele. E, se o fizessem, estaria desobrigado a divagar sobre. Lançaria mão de um nobre discurso, também cheio de citações, sobre as novas tendências dos cálculos de nós genéticos e quânticos de acordo com as teorias de William Tomson.  
 
Só que não esperava, ao menos naquela altura do campeonato, que uma simples entrevista no programa do Dr. Dráuzio Varela na RBI poderia derrubar-lhe do pedestal de tanta segurança. Uma neurocirurgiã anônima (uma pena! já que isso poderia render mais uma citação epistemológica!) lhe revelava – através da tela chamuscada por uma ventania na antena – que, todas as pessoas que sofrem de dislexia tem, além de vários outros sintomas, uma grave falta de coordenação para identificar de imediato os lados esquerdo e direito. Enfim estava explicado aquele ridículo número oito esboçado no ar toda vez que precisava orientar o motorista do táxi. Mas, além disso, estava desmistificado todo seu suposto amor as ciências exatas e inumanas. Seus erros ortográficos passaram a ser justificados por uma certa desordem numa dessas ‘ninas’ que permeiam nosso cérebro. Descobriu, naquela hora, que sua suposta burrice ortográfica ganhara status de uma elegante disfunção com direito a ‘xis’ ao som de ‘quiss’ – Dislexia!!! Poderia agora argumentar suas agruras literárias como defeito físico!!  
 
A matemática, embora sempre encantadora, já não lhe proporcionava o mesmo prazer orgásmico: fora promovida (ou rebaixada!) de paixão fugas de portão ao namoro de sofá com direito a sogro, sogra e pizza durante o Zorra Total. Kafka e Huxley passaram a permear seus sonhos (seres imaginários, esses, já que há muito alegava que escritores não existiam!). Pipocavam com intensidade. Era um bom e incontrolável inferno.  
 
Uma explosão?! – embora clichê, seria a única maneira de definir sua súbita paixão pelos livros. Ao lado à exatidão. Abraço às letras.  
 
Agora passa algumas vagas horas tentando recuperar o tempo perdido (com um q de frustração, evidente!), engolindo livros, um atrás do outro, desrespeitando todo o processo de digestão. Até se arriscou numa dessas ferramentas dos tempos modernos: o blog. E se lembra, agora saudoso e com um toque de sátira, de Dn. Fernanda quando algum leitor afoito lhe manda emails de correção.  
 
E tudo isso foi possível graças aos corretores ortográficos online.  Viva a tecnologia.

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