“No início era o Verbo e o verbo estava voltado para Deus.  E o verbo era Deus. Ele estava,  no início, voltado para Deus. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam. “

(Jo, 1-5)

 

– Psiu, psiu! Dá a bunda pra mim? 

Naquela manhã ao caminhar pelo Vale do Anhangabaú não pensava em muita coisa enquanto rezava o terço. Algumas feminices de mulher quase quarentona e de corpo em boa forma. Dessas que ainda moram com os pais, freqüentam bingos inofensivos no salão paroquial e brigam para continuar tocando violão no grupo de jovens aos domingos depois da missa das dez. Como estão caros os produtos da avon, será que uma blusa branca de babadinhos na frente combina com aquela minha saia de pregas colegial, quantos convites a liga das irmãs missionárias venderam para a festa do caqui, será que o irmão estava mesmo olhando para os meus peitos, cruzes! queima ele, Senhor. Fim do terceiro mistério. Pelo sinal da santa cruz… E antes do livrai-nos Deus, a surpresa. Deu ainda dois passos, depois parou. 

– Vamos! Dá a bunda pra mim? 

Era só dizer não e seguir em frente. Ou só ignorar. Afinal, era moça virgem. Católica por tradição. Mas esse era um pedido fora do comum. Um querer tão idôneo… Que veio numa hora em que tudo estava tão sem emoção. Um senducação qualquer escarrou. Eram as trombetas celestes num nariz assoado. Dentre os pombos sujos que ali buscavam restos, um era branco. Seu arrepio foi divino. Praticamente um sinal dos céus. Além do mais, nunca alguém havia lhe pedido assim, na cara dura. Na lata, como se diz. No máximo um namoradinho do ginásio que a cortejora durante três anos e um dia tentou enfiar um dedinho no grelo. Caramba! Ele não cortava as unhas. Arranhou. E foi merecido o tabefe. 

Mas esse homem não. Chegou do nada. Foi apertando o passo até chegar perto do ouvido e tascou-lhe um dá pra mim gostoso que fez ventinho no cangote e arrepiou até onde ela nunca imaginou que arrepiasse. 

– Vem, dá a bunda pra mim! 

Já não era mais uma perguntinha. Era quase uma ordem. O homem moreno, vestido com roupas simples e um tanto sujas exalava um cheiro de cerveja ao falar. Sua boca secou de uma forma tão súbita que não conseguia mais emitir nenhum som. Nem imaginou por quanto tempo ficou imóvel. As feminices deram lugar a pensamentos descontrolados. O que ele pensa que eu sou, sou de família, é cada tarado que aparece, e toma álcool já pela manhã, ali na frente tem um postinho policial, eu posso gritar, isso não se diz, deveriam ser proibidas as palavras desse calão, sujeito grotesco, olha lá todo suado, deus que me livre, se ainda fosse um mendigo eu perdoaria, mas parece trabalhador, vou dar um tapa, não! vou empurrar, não não, vou ignorar e continuar a rezar. Ave Maria cheia de graça… E antes do senhor é convosco foi espertada pelo volume que crescia discretamente na calça apertada do mulato. A passada leve de mão que ele deu sobre o membro foi decisiva. Era um novo sinal dos céus. Quase gritou aleluia. 

– Dou. 

Caminhou um bom bocado sem mais ouvir a voz do homenzarrão. Não havia percebido que o dia estava tão quente. Nenhuma palavra no trajeto até o Edifício São Vito. Durante o caminho tentou pensar em Cristo vertendo água viva no madeiro. Mas uma dessas fixações pasolinianas por pélvis não permitiu outro pensamento senão os mais impuros. Algumas vezes, do nada, um trecho de oração aparecia como um flash. Salve rainha. Uma salve rainha que agora vinha não como ladainha, mas como ovação. À ela. Em vez de coro de anjos, salve rainha era gritado por um monte de bichinhas a estimular sua imaginação. – Vai rainha, arrasa! – Transpirava. Tremia a carne. Salivava. 

Um quarto sujo de cheiro quente num prédio-cortiço onde a privacidade era luxo de poucos. Foi lançada na cama. Fixou olhar na pélvis que agora arreava o zíper. Gigantesco. Descomunal. E sem nenhuma unha. Boa pegada. Forte. Abre a boca. Gosto amargo. Vira de bruços. Lambida fresca na brasa. Dor de enxame de abelhas. Pára. Calma, já passa. Vai e vem com força. Tá doendo. Eu sei que você gosta, minha fêmea. Mais força. Tira de lá, bota na boca. Inunda que quase engasga. Fica de quatro. Não, aí não pode. Cala a boca. Dói. Fica quieta que vai ser bom. Entra com tudo. Arregaço e sangue. Dor de formigueiro. Relaxa. Vai e vem com força. Mais força. Inunda de novo. Dessa vez foi lá embaixo mesmo. 

Suas idéias cantarolavam. Se as águas do mar da vida quiserem te sufocar… E antes do segura na mão de Deus viu que uma platéia duns cinco mulatos carregadores do Mercado Municipal assistia a tudo com bocas e glandes a salivar. Teve um medinho gostoso. Desses medos sem vergonha de colegial em filme de Jhon Stagliano. Pela primeira vez estava a receber ordens fora do clero. Vieram um a um. Depois todos de uma vez. E a cada hora sentia uma dor diferente. Dorzinha gostosa. Um a um deixavam dez reais sobre uma mesinha ao lado da cama. Entre um e outro quase dava tempo de rezar um mistério.

Dividiu a féria do dia com o moreno do Anhangabaú. Amanhã, às dez no mesmo lugar. Era o início de um negócio promissor. Soube que ele se chamava João Batista só na hora de ir embora. Segurou na mão de Deus e foi. Ainda deu tempo de pegar a missa das seis.  

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