Existe algum sentido nos outros sentidos ante uma gozada bem dada?  

Era assim que justificava sua compulsão. Sentenciava a mesma frase toda vez que estava no banheiro a bronhar-se voraz. Enquanto se batia, olhava no espelho. Ora ria. Ora chorava. Ora não pensava em nada. Quase o nirvana. Em alguma época se entediava e mal sentia o próprio toque. Mas não cansava da rotina. Inovava.  
 
De duas semanas e meia para cá mudou a técnica. Nem se lembra como teve a idéia. Sua vida era a inércia: deve ter assimilado por osmose. Além do mais, era broxante demais pensar no passado, procurar motivos, lembrar de fatos ou coisas assim. Presente ou futuro? Idem.  
 
Aquecia um pote de geléia maluca em banho-maria. Esperava dar uns quarenta graus. Corria para o banheiro balançando a banha presa por um shortinho de elástico. Chegava lá, enfiava o mísero membro no potinho com a figura de palhaço no rótulo e balançava, balançava, balançava… até atingir aquilo que repetiria durante toda a tarde. O quentinho da geléia maluca deixava-o de pernas bambas. Suava.  
 
De fora a esposa ouvia alguns gemidos secos e o chacoalhar de carnes remetendo tapas curtos. Uns três minutos e quarenta segundos, mais ou menos. Saia de lá e, mudo, voltava ao sofá. Fingia ler o jornal. Na realidade elaborava fantasias com a voz da Cátia Fonseca fofocando com a Mamma Bruschetta.  
 
A mulher suportava passiva. Só não concordava com o aumento súbito da conta que a família tinha no bazar do bairro. Que ele  ao menos  comprasse a tal geléia maluca, anônimo, na rua 25 de março!  

Anúncios