Pulou do décimo segundo andar, o infeliz. No meio do trajeto desistiu. Quem quer morrer, morre pianinho e ele começou a gritar como uma gazela no cio antes do sétimo. Levou meio segundo para se arrepender do salto. Durante o trajeto, entre um soluço e outro, tentava quantificar a distância entre toda atitude e o arrependimento.

Por sorte havia uma árvore interferindo na distância entre ele e a morte. Fez uma forcinha pra direita e conseguiu amortizar a queda. Ralou-se todo num galho mal podado. Quebrou a perna ao cair sobre um arbusto. Sobreviveu. Mas acabou tomando uma coça do camelô que se assustou com o barulho. Ninguém o ajudou a levantar. Riram dele naquela situação.

No chão, se lembrou dos motivos que o fizeram pular: era um artista sensível! Sua arte soberba o obrigava a carregar nos ombros todas as mazelas do espírito humano. Diante de mais este fracasso se ocuparia em divagar sobre o arrependimento de ter se arrependido, sobre sua não-coragem ou toda a não-alegria, … Subiu os doze andares manquejante. Chorou desolado ao se deparar com a porta do próprio apartamento trancada: as chaves ficaram do lado de dentro.

Sentado num degrau qualquer, pensava em ostentar mais esta mazela em troca da piedade alheia. Talvez um texto num blog fosse uma boa maneira. Quem sabe divagar sobre a distância entre qualquer atitude e o arrependimento? Afinal, tinha que tirar algum proveito da situação. E, sabe-se lá, angariar alguns aplausos no final.

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