A essa altura os joelhos quase sangravam.  
 
Cumpriu todos os ritos naquela posição que a deixava com a perna dormente. Permaneceu concentrada. Maculada e impotente diante à imagem da crucificação. Forçava-se, crucial, a acreditar em tudo que lhe foi dito na última hora e meia.  
 
Clamou por um socorro solicito, em silêncio, sem saber quem ouviria sua prece. Foi agraciada com, no máximo, duas ou três odes mal tocadas por um orgão triste de tom imperativo. Faces feias de expressões inquisitoras . Chales pretos em cabelos longos. Dedos em riste. Rito vazio. Clamava à virgem que a livrasse desses maus pensamentos. Lhe ensinaram assim. Dor ingrime. Angustia ansiosa. Solidão lacerante.  
 
Levantou-se. Teve medo de bambear mas caminhou firme em direção à fila de poucos crentes. Cética, chorava seca pela auto-mutilação do ego. Tentava se lembrar da falácia que precedeu o cume que estava por vivenciar – nada. A falácia lhe remetia a felação que sempre imaginava no púlpito. Uma ode niilista.  
 
Não lhe restou ninguém para impedir sua conversão.  
 
O meio-homem vestido de preto lhe enfiou o corpo na boca. Fez posá-lo em língua amarga e jaculou o nome do messias. Engoliu a seco. Deu as costas com aquela sobriedade pertinente aos suficientes e saiu sem receber a benção final.  
 
Nunca se sentiu tão condenada.

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