Embriagou-se antes da meia noite. Acordou com o sol já alto violentando as frestas da janela e morenando um canto do seu rosto (se é que assim se pode dizer). Sempre tinha essa dificuldade em saber quem era quando acordava. Existiam várias versões dentro de si que insistiam em reclamar (todas ao mesmo tempo) de sua realidade. Lamentou ter perdido a queima dos fogos de artifício.

Envolto à ressaca, ficou a espera de uma memória, um acontecimento qualquer, mas nada aconteceu. Levantou cambaleante e fitou-se no espelho como se o hálito estranho viesse só do seu reflexo. Viu refletida uma imagem sem nenhum significado especial. Tomou a decisão de naquele dia ser Maria. Amanhã talvez fosse José.

Comemorou solitário o início do ano novo, sem prestar atenção que no calendário noivas sonhadoras abriam passagem para bodas de palha e remendos.

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