O que espertou Virgínia, além do horribile gustu de corrimão de metrô na boca, foram os Versos Íntimos de Augusto dos Anjos meio cantados num tom indecifrável e sibilante por uma voz incomum: “Vês?! Ninguém assistiu ao formidável enterro da tua última quimera…” De fato, ela ansiava que ninguém tivesse assistido. Ansiava somente a ingratidão pantera como única companheira daquela noite.

No susto abriu os olhos. Se arrependeu. Cerrou-os burlescamente tentando se lembrar de todos os passos do dia anterior. “Um horrendo dia de trabalho na Livraria Cultura e depois uma espairecida solitária num barzinho dito cultural nas imediações da Paulista, mas que na verdade, é freqüentado por um bando de pós-yuppies metidos à artista com aquela irritante mania de citações das obras do underground.

Lembrou-se da primeira cerveja, ainda solitária, ao som de Jeorge Benson. Da segunda ao som do violão lacerante de Yamandú Costa. E depois, durante a seleção do Moska, alguém lhe ofereceu martini doce. Não conseguiu recordar de mais nada. Nem onde havia guardado o Mrs. Dallaway que teimou em levar a tiracolo. Sim, Virgínia Woolf, sua xará e dona do seu estro, vomitaria se soubesse que ela deu praquele poetinha mórbido, urbano e desprezível que tinha a mania de, depois de algumas doses, subir numa mesa qualquer e recitar obras incompletas ou plagiadas que teimava em dizer que eram suas. Sim, ela deu.

A coitada não agüentou. Chorou enquanto escondia com o lençol a pequena bunda branca que existia entre suas estrias.

Tomada pela angústia de Clarissa Vaughn, resolveu voltar pra Igreja. Lá ao menos o padre era parecido com Ed Harris e a cultura parava nos gritinhos histéricos de “somos tão joooovens” acompanhados de, no máximo, três acordes simples num intervalo do grupo de jovens.

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