Sempre que te espero lanço mão dessa mania boba de te inventar de várias maneiras. Mas são maneiras não-originais, que já existem, compreende? Há tempos não sou original. Te invento com as partes que gosto em você. Como hoje de manhã, por exemplo. Enquanto te olhava dormindo não pensava em nada e te inventava. Fitava sua mão na minha e imaginava nossos corpos vistos de cima,  de um outro ângulo. Sua testa quase tocava a minha. Agarrávamos, simultâneos, nossas mãos como se nelas estivesse o único porto seguro. Estávamos na mesma posição. Completávamos. Simétricos, éramos o único desenho perfeito dessa existência banal. E agora tento te inventar para te escrever. Dá pra entender por que não sou original?

Você é belo. É estético. Não falo da estética do belo, mas das vísceras da estética. É confuso? Não fui claro? Nem preciso… O sentido de estética é essa ruptura abrupta no espaço-tempo que me remete à reflexão do imaginário. E te imaginar real enquanto te olho é o meu passatempo predileto. Se todo o tempo da vida se resumisse ao que se passa quando em silêncio te olho, queria que tudo eternamente se passasse assim: parado.

Definitivamente sou um tolo. Um bôbo. Um bocó. Rio de mim em momentos como esse: quando quero descrever em palavras banais a essência do que somos juntos. É impossível! Nossas palavras ainda não foram escritas. Muito menos inventadas. Somos eufemistas! E esse nosso eufemismo é tão brega…

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