Acordei berrando um ‘O quê?’ assustado e ofegante.  Alguém gritou meu nome nitidamente. Bravo, como se fosse cobrar uma dívida. Tremi. O silêncio devia ter uns vinte e oito quilos e quase trinta e quatro graus. Tentei me localizar em alguma fresta de janela, mas como o apartamento é novo demorei a recobrar a oriente. Consegui. Graças a uma sirene estridente na rua e ao relógio do vídeo cassete piscando zero hora constantemente. Umas três e meia da madrugada, talvez. Eu não me lembrava de uma noite tão escura nos últimos tempos.  

Tentei sentir meu corpo dificultado pela dormência dos membros. Percebi que ainda usava sapatos. Horrível sensação já que cumpro religiosamento o ritual banho-perfume-pijama antes de deitar. Uma velha jaqueta de couro marrom me sufocava . Minhas mãos cheiravam a cigarro. O gosto enjoativo e anestesiante na boca denunciava o que já era evidente. Sede terrível. Tentei parar de tremer e respirei o mais leve possível para não macular o silêncio. Precisava saber de onde (e principalmente de quem) veio aquela voz.  

Não sei quanto tempo fiquei imóvel. Nenhuma voz. Nenhum berro. Ninguém repetiu meu nome. A urgência em urinar já me causava uma certa cólica na região pélvica. Percebi pela fronha que transpirava em bicas. Boca rachada de tão seca. Levantei grotescamente e um forte estrondo intracraniano me tombou novamente na cama.  

Então me lembrei de tudo. Aquela dor curvilínea no topo da cabeça. A vista embaralhada. O enjôo. Tontura e boca amarga. As câimbras. Tudo me remetia àquela velha bolota no cérebro. A iminência de morte súbita. A iminência de morte lenta. A iminência da morte me despertou e só permitiu que eu fixasse o olhar no teto.  

Seria de fato o teto ou meu olhar vagava na escuridão erma de um buraco negro? Estava de fato no meu quarto ou tentando regressar de um coma induzido? E se eu morresse naquela hora? Alguém me acharia a tempo de ser cremado antes da putrefação? Senti medo de ser enterrado. Ou de já estar enterrado. Me apavora a idéia de apodrecer. Seria lenta a morte de quem optou pela solidão? Seriam os auto-sufientes castigados com a ausência de choro e funeral? Alguém sofreria? E as dores? Meu Deus, quantas dores… Agora que tudo começou eu teria de ir ao médico. Raspariam minha cabeça. Abririam meu crânio com uma serra. Tico-tico? Elétrica? Ou seria uma serrinha manual? Lóbulo frontal esquerdo! Alguma parte direita do meu corpo perderia definitivamente os movimentos. Seria melhor morrer, então! Seria?  

Passei a numerar as pessoas que chorariam com minha morte e tive vontade de rir. Seriam penalizados todos os que me fizeram sofrer. O remorso calado seria minha principal espada contra cada um de meus algozes inimigos. E os queridos? Imaginei a reação de cada um. Como choraria a ex. Como gritaria a atual. Como se descabelaria a progenitora. Como ficaria o pearcing na sobrancelha da filha. O que divagariam os colegas de trabalho. E o que escreveriam em seus blogues os amigos virtuais. Voltei a progenitora: auto piedosa berrando sobre um caixão esbanjando dor em troca de atenção. Típico dela. Que boa vingança! E eu ria. Gargalhava me vendo no caixão. Nosferatu.  

Acordei com minhas risadas barulhentas. Dessa vez o sol já entrava pela fresta da janela e teimava em queimar um pedaço do meu rosto. Eu, atrasado como sempre. A verdade deixava de ter o lado lúdico de uma doença delicada com iminência de morte. A verdade voltava a ser uma banal ressaca. 

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