Estava lívido, mas não perdia a oportunidade de ruborizar as donzelas presentes com meia dúzia de palavrões. Estava hirto, mas hora ou outra disparava a beliscar bundas em todas as direções. Estava silencioso, mas tinha rompantes de falatório pelos cotovelos. Estava morto, mas a cueca insistia em lhe adentrar o rego.

As pessoas que de coração partido vieram para o velório, começavam a se sentir incomodadas. Comentavam entre si que, se ele continuasse com toda aquela firula, não acompanhariam o cortejo fúnebre até o cemitério:

Ele tem de se comportar com toda a pompa que exige a situação! Onde já se viu tal infortúnio?

Mas ele continuava. O papel principal naquela cena dantesca lhe causava um frisson inexplicável. Tinham que ser compreensivos. – Não há como parar quieto!

Os presentes então resolveram assinar o livro de condolências e nele registrar o seu protesto. Saíram um a um até deixá-lo só em seu próprio funeral. Desumanos.

Ele, com ares de nem-te-ligo, sacudiu os ombros e pouco se importou. Continuou morto e sentado pirilampo ao caixão, balançava os pés cheio de vida. Era, de fato, um cadáver muito esquisito.

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