Paulista, em si, é uma crônica que remete à solidão.

Um esguio fala ao celular desligado durante horas sob uma música ensurdecedora só para chamar a atenção. Depois, senta ao meu lado num sofá e chora para chamar a atenção. Volta à pista e arrasa no rebolado sem conseguir chamar a atenção de ninguém. No máximo de dois desconexos que caçam personagens por compulsão. O celular finalmente toca. Mas dá pra perceber que é o despertador programado.

Uma barbie beija outra barbie. É estanho: duas montanhas de músculos que se admiram egocentricamente no corpo alheio. Amam-se mais que a qualquer outro. Um belo cataclisma. Excesso de saliva, línguas e hemogenin. Beijam-se para chamar a atenção. Seriam mal sucedidos se não fossem os desconexos caçadores de personagens.

Uma senhora recolhe o lixo com um saco preto. 

A pista lota e o DJ pilota por horas intermináveis a mesma música. Centenas de pessoas dançam tentando chamar a atenção. Solitárias. Ninguém se fala. Ninguém se olha. Ninguém se beija. Estão todos preocupados demais em chamar a atenção para dispensar a sua com alguém. Uma infinidade de lindos umbigos. E o meu é sempre maior e mais lindo e mais descolado e mais tudo que o seu. Eis a maior solidão coletiva que já vi. Eu nunca vi tantas cabeças chacoalharem aleatóriamente como ali.

A senhora continua recolhendo o lixo com um saco preto.

Algo parecido com um skinhead beija uma loira sem perguntar-lhe o nome. Em lugares assim saber o nome é sinal de leviandade. Lábios em riste. Dedos molhados e o volume da calça em punho. Ele (o skinhead) consegue chamar a atenção dum rapaz que olha hipnotizado e esfrega a pélvis. Amém, dizus: alguém consegue tocar um sentido alheio! Então ele vira e passa a beijar o cara também. Perdeu (pudera!) a atenção da loira que agora olha furtiva para uma fumaça que vem do alto da pista. Me remete a infância, aquela loira. Lembro-me de quando procurava formas de elefantes desengonçados nas nuvens. Lúdico o olhar dela. Parece ter treze anos de idade. O skinhead sai. Sem levar dali atenção de ninguém.

Agora a senhora mudou de saco. O lixo se perde num fundo branco. E então ela me olha feio.

Fila no banheiro. A batida techno faz com que os corpos  cedam ao movimento de sua massa disforme. Quase engraçado. Nos intervalos musicais desritmados percebe-se o silêncio. Este é mais ensurdecedor que as pick-ups potentes. Fica claro o tal peso do silêncio que sempre insisto em quantificar. Um atrás do outro balançando ao som do exctasy. Uma massa em busca de diversão. Huxley foi um visionário. Orgulharia-se desse admirável mundo novo.

Se não fosse pela senhora que recolhe o lixo o tempo todo eu estaria perdido. Ao menos ela dispensou a mim um pouco de atenção. E eu a ela. As quatro da matina ela passou pela última vez. Me enfiou naquele saco e me levou embora. Junto com aquele cara que comigo, procurava personagens por compulsão.  

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