Choveu a noite inteira, mas não o suficiente para lavar a cólera daquelas últimas palavras. Sentou-se à beira da janela, acendeu um cigarro e deixou que o vento úmido levasse a fumaça. Continuou a chorar em silêncio. Tomou um vinho barato. Ligou o rádio-relógio. Não suportava o barulho solitário das buzinas vindas do cruzamento lá embaixo. E só chorou. Como nunca havia chorado antes.

Nos próximos dias persistirão as tormentas, mas há possibilidades de pequenas melhoras e em breve o fim dessa duradoura frente fria – informava a meteorologia.

O homem sentado à janela não deixou de chorar, mas o indício de um sorriso tímido abriu-se naquele triste rosto molhado.  

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