“Sente dores?”, ela perguntou num tom de voz impostado, meio indefinido. Teve receio de dizer que sim, na alma.  Era uma dor que o acompanhava desde que se aposentara do banco. Mas o que lhe doía em toda (ou nenhuma) parte do corpo era a solidão. Comia feijão de uma semana na geladeira e ainda lambia os lábios. Gostava de qualquer coisa, menos da solidão. Faltava-lhe a energia necessária para sair dela. Por isso estava ali, mais pela companhia que pelo diagnóstico.  
“No ombro”. Foi a única coisa que conseguiu responder sem deixar transparecer que  sua idosa voz estava embargada.
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