Aquela sensação de frescor causada pela falta da peça íntima revelava-lhe uma coragem absurda, que nem de longe imaginava ter.  

Antes de atravessar o quintal, borrifou sobre a pele um perfume suave de vanila. Abriria o apetite de sua presa. Molhou levemente a nuca e pulsos para amenizar o calor estonteante do interior paulista. Sem vento, assoprou dentro do vestido de tecido leve e estampado com flores tom pastel. Passou um claro baton. Retirou em seguida com o punho. Queria parecer primitiva. Livrou-se dos chinelos. Descalça seria mais selvagem. Despudorou-se, enfim, das peças íntimas, deixando as pontas dos seios marcarem o pano leve, provocante. As coxas abriam e fechavam. Olhava no espelho, com ares de devassa, as partes rosadas cobertas por pelos negros mal aparados. Era a libertação. Atravessar o quintal sem as amarras sufocantes das peças íntimas.  

O toque do pé na grama, excitou-a. Uma brisa morna adentrou o seu vestido. Sentiu calafrios. Que sensação maravilhosa – pensou. Descobriu naquela hora que o perigo aguçava-lhe a libido. O trajeto no quintal pareceu infinito. Infinitos dez passos da porta da cozinha até a porta da garagem onde labutava seu marido. De longe ouvia o choro manhoso de sua criança e sentia o cheio forte da lingüiça paio que cozinhava no feijão. O cheiro deixava insignificante seu perfume de vanila, mas nem de longe tirava-lhe o desejo. Rasgava-lhe o interior, o tal desejo. Sua carne tremia sobre os ossos de desejo. E o calor. Aquele calor da excitação que sobe pelos lados do pescoço deixava seu rosto vermelho e a pele mais quente. Sua respiração ofegante quase a impediu de falar:  

Não quer parar um pouco?  

O esposo estava sob um carro, concentrado num pequeno vazamento de óleo. Nem deu importância ao convite.  

Tá cedo ainda para comer – respondeu, grosso, sem desperdiçar a ela atenção.  

Pulou felina sobre o capô. Abriu as pernas. Começou a se mexer, balançando forte o carro suspenso apenas pelo frágil macaco. Passou a pular, ignorando as admoestações do marido. Era o puro prazer. Primitivo. Caprichou em seus esforços, fazendo o suporte envergar. Parou apenas quando escutou um grito medonho e o estrondo forte das rodas caindo ao chão. Ficou em posição de gata. Olhando para o chão desceu com cuidado, descalça, não queria manchar os pés de sangue. Saiu da garagem para atravessar saciada, sem as malditas peças íntimas, o quintal.  

Desta vez foram mais de dez passos. Não voltou a cozinha. Saiu pelo portão. Dentre suas pernas bambas escorriam algumas gotas de um líquido espesso. Baba de moça. Nunca sentira tão boa sensação.

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