Com olhar contemplativo ou complacente o morto olhava o seu umbigo. Era um umbigo interessante para esta altura do campeonato. Nem estufado, nem escondido. Ambigüo. Arriscaria dizer o morto que seu umbigo era viril de uma virilidade um pouco suja. Ou talvez um umbigo pueril graças a essas dobrinhas que dão vontade de morder. Pensava até no umbigo adolescendo devido aos raros pêlos que o umbigo tinha ao seu redor. Imberbe o umbigo do morto. Ou pelado de calva velhice. Tocou seu umbigo o morto e, ao contrário do que esperava, não era um lugar gelado como de fato, pela ocasião, pela convenção e pelos conformes, deveria ser. Pensou o morto um pensamento quase vivo que se o umbigo era a única coisa viva do morto era no umbigo que o morto gostaria de morrer. Como problema de morte não era lá coisa boa pra morto pensar, ficou calado um dia todo, abalado com essa história de falecer. O morto malogrou pensar no fim. Mesmo sem querer ser bastião, desses que abraça fácil seu destino, entendeu que não podia mais deixar de morrer. Escreveu então uma carta de recomendação, caso um dia, deus o livre, credo em cruz, acontecesse com ele esse negócio, não fizessem ao morto aquilo que não se podia fazer:
“Se um dia eu morrer, quero jazer em meu umbigo: lá estão só as coisas que me valem a pena, das quais não vale a pena escrever”.

6 comments
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Abril 24, 2008 às 3:32 am
William Oliveira
Hum, muito bem. Preciso tecer os elogios de práxis ou uma crítica semiótica ferrenha?
Ah, quer saber, deixarei pra uma análise de caráter psicológico. Afinal, combina com o autor…
Abril 25, 2008 às 12:46 pm
Alberto
Aee o sumido reapareceu!!
e com mais uma vez que com um texto sobre o estado moribundo. muito bom, pra variar
abs
Maio 1, 2008 às 4:54 pm
Srta. Bia
deveríamos todos nos contorcer até entrar dentro de nossos próprios umbigos ao morrer. onde mais estaria apenas eu…
Maio 16, 2008 às 10:49 pm
Bea
adorei, julhinho! =}
você escreve loucamente bem.
Maio 21, 2008 às 8:17 pm
Tarco Rosa
Olá Júlio, você visitou meu blog há umas duas semanas, mas não tive tempo de retribuir-lhe a visita adequadamente. Estou passando agora, mas não consegui ler tudo. Vou linkar seu blog para tornar mais fácil a visita. Sua prosa me interessou bastante. Prometo passar outras vezes para ler tudo com mais calma. Um grande abraço
Julho 31, 2008 às 4:08 pm
YRA
QUe surreal , real, irrealista! Me faz querer ser desenhista dessa sina.
Ju, me lembrou um poema que escrevi há muito tempo:
“Uma só cor pra ser feliz”
Buraco verde liso que me traz paz
muito mais que um sorriso, que me desanda, tão fugaz
Planta verde linda, que me limpa o que tenho demais
muito mais que um olhar, que me faz correr atrás
Folhas secas escuras, que absorvem minha loucura
Tanto quanto a terapia, que só me traz alegria
Jardim multiespecial dessa vida tão banal
Cores!! Infinitas e distintas…Corra!!!!!
Fuja desta tinta
Pinte a luz da tua alma, sombreie o excesso de “negrura”
Deixe que o sol derreta toda Arte; sua grossura.
Afinal, a tumba do umbigo deve ser cheia de resto de natureza desconhecida…e o umbigo um buraco liso, lindo, seco, escuro, vital e banal..onde o negro exprime as cores do mundo alheio.