Aqui dentro fluía um desses pensamentos que transformam a voz desafinada em tristeza profunda. Mais uma vez eu dava as cara com um tipo de solidão apavorante dos abismos silenciosos que existe entre as pessoas. Deparava com a náusea de outrora que jurei banir de mim. Quebrava todas as minhas promessas dissimuladas de nunca mais me fazer infeliz.
Era apavorante não olhar em linha reta. Aquele frio abdominal que claudica cólicas de medo não permitia que eu olhasse em reto horizonte. O olho declinava e encontrava só o abismo oculto em pez. Pensar no que jazia além dali era conveniente. Desviar o olhar da gosma espessa e quente que era ar, e trocá-la pelo negro materno dum reles buraco apocalíptico, era o que me cabia naquela hora arrastada. A eterna madrugada vagueava.
Um cigarro. Um resto de cerveja quente e um tonel de silêncio nauseante. O vento frio da janela do décimo segundo andar. A avenida emudecida. Eu emudecido. E nada mudava. Era o que me restava: minha não-vida sempre no mesmo lugar.
No hotel logo em frente luzes piscavam frenéticas. Conseguia prender a atenção imaginando o que acontecia naquele universo tertuliano. Flashes alegres me davam vontade de cantarolar uma música desconhecida. Eu já estive naquele hotel de mórbida felicidade aparente. Será que o quarto em que fiquei ainda existia? Os instantes que lá vivi de fato foram meus? Delirante, me perdia na profusão.
Até clarear, a insustentável rotina de vida involuntária insistia em seu discurso. Era a minha ordem natural das coisas: esperava até amanhecer para que se cumprisse a sina enfadante da não-felicidade que me permeava.
Em mais um dia, a inexistência.
E de novo, eu não queria mais falar.

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